Crônicas

Você é o quê?

        O espelho reflete um rosto que, com o passar dos anos, vai desenhando as suas cicatrizes temporais. Não é incomum dizer que conversamos com nossos silêncios e nos questionamos o tempo todo. Estar diante de um espelho reflete o que você é, mas e o que você pensa? Como seria, então, conversar com você mesmo diante do espelho? Você teria coragem de fazer uma autocrítica séria?           Você teria a coragem de admitir erros? Você se perguntaria onde errou no passado ou até mesmo se desculparia pelos erros cometidos? São perguntas bem sérias.
       Diante do espelho muitos se arrumam para o trabalho, para a escola ou para um encontro com os amigos. Nos fantasiamos, de certa maneira, para sair às ruas. Afinal, estar mal ou bem-vestido pode definir aquele que sai às ruas. Pois, diante do espelho, temos a vontade de ser muitas coisas – coisas que seríamos, longe dos olhares de outros. Como é bom saborear uma vitória diante daquele espelho iluminado, e quantas vezes foi doloroso ver as lágrimas correndo, como se você quisesse que aquela figura que você vê pudesse te trazer algum consolo?
        Um rosto diante de um espelho é um escritor tentando escrever a história da própria vida. Uma boa história é feita de perguntas, assim como o leitor é o espelho daquele que escreve, afinal, expressões faciais definem o agrado ou o desagrado daquele que lê.
        Para analisar as próprias dores, devemos considerar o rosto que aparece no espelho. Para o estudante que está determinado a ser aprovado em um exame difícil, a conversa com o “você” é mais um motivo de estímulo. Não existe o desestimulado quando o próprio ser coloca o “você” em xeque. Para o amante que vai ao encontro pela primeira vez, o espelho nunca é satisfatório para dizer que aquele “você” está bem-arrumado. Para o profissional cansado do trabalho, olhar-se no espelho é uma forma de desencanto. Há um contraste visível entre aquele que sai pela manhã e aquele que volta quando o dia já se dissolveu e a luz solar é apenas uma lembrança.
        Em uma contenda, o espelho serve para que você pergunte se vale a pena continuar em qualquer campo do conhecimento. O espelho é o lenço que se esconde quando alguém busca consolo. Olhar a si mesmo em total desespero é como se nenhuma cumplicidade fosse capaz de ajudar. Um casal, ao olhar-se no espelho, pode lembrar um filme que não tem começo, meio ou fim. Desfilar os próprios corpos diante de um espelho é como se houvesse outros olhos a espionar.
         Para o derrotado, o espelho poderia ser a janela de fuga para outro mundo. O espelho encerra mais do que uma caixinha de segredos, eternamente vedada ao mundo.
        Um dia, o espelho se desfaz, e, usado por tanto tempo, já apresenta marcas de descaso e fadiga. Mas existem outros espelhos na vida, que podem ser as fontes de perguntas sobre quem você é e o que pensa. Os olhares de críticas de outros são pequenos espelhos perambulando procurando vítimas. Ver no brilho dos olhos do ser amado nos diz o quanto somos importantes para alguém. E, também, podem refletir desapontamentos que nos dizem como nós somos, na realidade.
       O que você é não é nenhum segredo para si mesmo. Resta dizer ao espelho o que somos e por que nos olhamos tanto antes de fazer o bem ou o mal a alguém.

Origem da foto:  Foto de Julien na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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