Crônicas

Isolamento e distanciamento

         De frente para uma tela de computador, muita gente se sente poderosa ou em completa solidão. Poder escrever o que se quer é um atributo de extrema liberdade e, ao mesmo tempo, de imensa responsabilidade. A vontade de responder a algum comentário absurdo também leva alguns a engolir, em silêncio, algo que não lhes caia bem.
          A internet torna gente solitária em participante da comunidade, podendo se comunicar com quem se queira, a qualquer momento e no mesmo lugar, sem sair do conforto da casa. Imune aos perigos, muita gente se aventura a fazer aquilo que a censura impede de fazer diante de alguém real, e não de uma ficção. O isolamento se torna uma arma de ataque sem medir as consequências, e os solitários descobrem que, na solidão, habitam outros tão solitários quanto eles. O mundo digital encontra uma forma de unir isolados e solitários em uma mesma comunidade.
         Paradoxalmente, o isolado e solitário encontra eco nas suas argumentações, e esse isolamento deixa de existir, apesar de se originar da solidão; uma solidão acompanhada. O isolado, assim, não está distante do mundo, pois mantém contatos com sua comunidade de isolados.
         Existem, no entanto, aqueles que se desconectam do mundo e buscam, voluntariamente, o distanciamento. Não estão isolados, mas não conseguem articular seus pensamentos com membros de comunidades, porque aquele que opta pelo distanciamento o faz por motivação própria, e não porque apresente algum distúrbio psíquico. É uma conclusão de vida para preservar, exatamente, a saúde mental.
       Isolamento e distanciamento se encontram no sentido de abandonar o mundo e passar da realidade física para a digital. O acesso digital cria verdadeiros drogados, no sentido de que não conseguem se desgarrar dos celulares e computadores para buscar algo que traga, de verdade, uma alegria mental. Não existe um mal em si mesmo quando lidamos com o mundo digital. Ele é como uma grande vitrine onde são oferecidos os mais diversos entretenimentos. A causa da desconexão é que o sistema é invadido por uma enxurrada de loucuras que levam os distanciados a repensar suas vidas e a estimular o isolado em sua própria solidão.
        O isolado é uma ilha cercada por “amigos” que tentam convencê-lo de coisas inverossímeis. Ele é um mal em si mesmo quando não procura outras fontes que destruam esse autoisolamento e se incluam no mundo. Em realidade, o isolado não quer sair da sua bolha. Ele pode caminhar pelas ruas, interagir com as pessoas e, no entanto, não deseja a sua integração, mas a desintegração do outro, para que ele possa existir.
       O distanciamento é um ato voluntário e decidido a não se deixar contaminar pelo que ocorre no mundo. Aquele que toma a decisão de se distanciar quer, acima de tudo, a paz de espírito, enquanto o isolado busca o confronto.

Origem da foto: Foto de Sasha Freemind na Unsplash
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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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