Solidão
Nunca vivemos tanto a solidão como nos tempos de pandemia. A determinação do isolamento nos trouxe a ideia de solidão em sua forma mais realista. As ruas desertas, as motos de entrega indo de um lado a outro, nos fizeram pensar que a solidão não esteve somente dentro das casas fechadas, mas, também, naqueles que andavam solitários durante as noites.
A solidão tem muitas formas.
Para alguns, a solidão pode significar tempo; tempo de se conhecer, tempo de se reavaliar em um retiro compulsório, obrigando-nos a repensar a própria vida. Para alguns que não necessitavam ficar mais nas ruas; desfazendo as saídas noturnas, passar as tardes vagando pelas vitrines ou ficar à toa vendo gente, a solidão teve seus efeitos.
As solidões podem ser muitas. Existem aqueles que não se conformam com ela e rompem o seu isolamento, enquanto outros a veem como aliada. Ela é o tempo que pensávamos não existir mais. A solidão não é ausência, é presença. É o momento, mesmo para aqueles que têm o tempo solitário menor, de pensar qual ser sairá para as ruas dali por diante.
Descobrimos que algumas das nossas necessidades nunca foram, realmente, necessárias. Mesmo em parcos momentos de solidão, podemos imaginar o que não faremos mais, porque, no fundo, não tinha utilidade nenhuma. A solidão nos dá esse tempo: tempo para nos conhecermos e repensarmos novas formas de viver.
Meses de reclusão nos fizeram pensar sobre tudo. A solidão pode ser companheira enfadonha para alguns ou se transformar em oportunidades para outros. Alguns dirão que é tempo de vida que se perde. A pergunta seria: qual vida?
Vida é consumir ou se consumir? Você consome a vida ou é consumido por ela? E essa vida que nos consome é composta de pedaços de vida que damos ou vendemos aos outros, como uma moeda invisível?
Alguns têm medo da solidão e outros a transformam em parceiras. Elas podem significar o medo de se sentir sozinho ou o prazer em fazer o mesmo. Solidão cada um tem a sua, e cabe, a cada um, transformá-la em algo útil, transformá-la em algo de valor ou apenas ter medo dela e criar angústias.
Nem todos gostam de leitura, nem todos gostam de um hobby, nem todos sentem prazer em pequenas coisas. Quando a solidão se instala, de forma obrigatória, descobrimos aqueles que são, realmente, solitários, porque continuam a ser os mesmos.
Talvez aqueles que saem às ruas tentando preencher a solidão, sejam aqueles, realmente, solitários, porque não conseguem conviver consigo mesmos. Dirão alguns que somente os egoístas conseguem conviver com a solidão, porque conseguem conviver consigo mesmos, sem se importar com os outros.
Um repórter perguntou a Gabriel Garcia Marques por que a morte é uma personagem presente em suas obras e o que ele fazia para enfrentá-la. Ele respondeu que escrevia muito e sempre.
Talvez a receita para enfrentar a solidão seja escrever sobre ela e pensar com ela. Enriquecer com o conhecimento. Quem seria o mais solitário: aquele que transgride e sai às ruas mostrando o seu desprezo pela segurança ou aquele que tenta conviver com o silêncio, tentando crescer por dentro?
Que solitário é você?
Origem da foto: Foto de Geoffroy Hauwen na Unsplash
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