Crônicas

Mundo que ensina

        Ensinar não é uma arte, porque quem ensina não é um artista. Ensinar não é um sacerdócio porque quem ensina não é um sacerdote. Ensinar não é amor, porque quem ensina não é um amante. Ensinar não é educar, porque quem ensina não é um pai ou uma mãe quando estão em salas de aula. Quem ensina é, antes de tudo, um profissional que se qualificou para exercer uma profissão, é um técnico ou uma técnica que aprenderam a transmitir conhecimento e capacitar pessoas.
          Quem ensina não precisa transformar a sala de aula em um show de stand-up, de ser engraçado, um tipo de palhaço fantasiado para captar a atenção da turma. De toda maneira, uma aula não necessita ser maçante e tediosa porque, ao transmitir o conhecimento, ela pode ser leve e convidativa.
          Muitas vezes, os políticos insistem em dizer que a profissão é um sacerdócio, que é algo a ser considerado quase que religioso. No entanto, não há profissionais com uma vestimenta específica e o lugar daquele que ensina não é um altar. Nessas desculpas estão as colocações de má remuneração, esquecendo que o profissional tem uma vida a gerir e sonhos a realizar, como qualquer outro trabalhador.
       Outras vezes, lemos que ensinar é um ato de amor, que é necessário ter carinho pelos alunos. Como qualquer profissional, fazer seu trabalho com dedicação não é, necessariamente, uma exceção, mas uma regra. O cumprimento da lide laboral é um exercício de profissionalismo.
        Confunde-se o educar com o aculturar. A educação, a maneira de se comportar e respeitar, vem da família e dos responsáveis. Uma escola transmite conhecimento e ensina os bons hábitos, para que os alunos se tornem os difusores no seu meio familiar ou de amigos.
       O ato de ensinar se encerra quando o professor ou a professora se alegram ao ver os frutos daquilo que transmitiram. É como uma voz que surge do fundo da sala e capta com perfeição o desfecho de um enigma matemático, científico ou algo conectado à língua e às consequências de sua interpretação.
        O resultado do trabalho de um professor ou professora não aparece em um balanço recheado de números azuis, não configura um lucro contábil e nem beneficia algum investidor. O resultado não tem parâmetros estatísticos, paradigmas de ideologias. O resultado é invisível aos olhos dos leigos. Ele aparece no futuro de alguém que sentou em bancos escolares e adquiriu e filtrou os conhecimentos, sabendo as atitudes a tomar no futuro. Mas nem sempre as coisas funcionam assim. E quando os alunos e alunas não tomam isso como um mote de vida, o mundo os ensina a comportar-se, sem direito a uma revisão final ou alguma condescendência do mestre que cede pontos para estar no ano seguinte em outro nível de conhecimento.
        Ensinar não é uma arte e nem o mundo está propenso a ser palco para aqueles que não souberam ou não tiveram a oportunidade de conviver com o conhecimento.
    Aprendemos não somente nos livros e nas suas palavras impressas, descrevendo fenômenos, contando histórias ou soluções mágicas em assuntos de matemática. Aprendemos com as ferramentas rudimentares de iniciantes dadas pelos professores e professoras que se dedicam a fazer do mundo o palco onde seus alunos vão atuar.

Origem da foto: Foto de Element5 Digital na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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