Crônicas

Sementes da memória

        A nostalgia faz parte do nosso cotidiano. Quando a rotina frenética chega ao fim do seu dia, descansamos a mente, refletimos sobre o nosso dia, a memória nos provoca e voltamos no tempo. A memória revolve pensamentos e é como uma visão campestre, que remete à calma e à beleza do silêncio. É claro que há um exagero nisso; nem sempre o passado de muitos de nós foi de calma e beleza, a contemplar o silêncio.
        Relembrar é como construir uma imagem campestre que nos traz esse convite para viver a paz, ainda que seja uma paz romantizada e inventada. Ver os campos abertos é uma forma de desestressar e interromper uma vida urbana apressada. Não por isso, os moradores das cidades procuram uma vida campestre para relaxar e viver suas férias.
        Nossas memórias funcionam como remontar um tempo passado em busca de conforto da alma. As imagens são sementes plantadas em nossa mente, prontas para germinar e reviver, como um campo florido e deslumbrante, as nossas lembranças, retornando com outras histórias recontadas.
       Nada se compara ao frescor da chuva que tira um cheiro diferente da terra, invadindo nossas lembranças com mais sabor. O som do vento no meio dos prédios de uma cidade não se compara ao farfalhar das folhas e o balançar suave das flores espalhadas aleatoriamente pelos campos. Nossas memórias são como a tranquilidade da vida campestre preservada, e funcionam como freios para nossa pressa de viver. Seus personagens são sempre gente silenciosa e de falar manso, com olhares profundos como se pudessem ler os corpos e as mentes dos visitantes. As memórias são locais semelhantes a pequenas cidades, onde o som das ferragens dos cavalos, encontrando as pedras do calçamento, produz um som inigualável. É como um som de ninar que convida ao sono e à paz.
       Muitos poderão dizer que relembrar é um momento de depressão. No entanto, aqueles que insistem em relembrar o passado, na verdade, tentam fazer florescer as sementes de um tempo feliz e distante no tempo; até porque ninguém gosta de relembrar infelicidades. Esse estofo de conforto traduz, exatamente, o grau de felicidade que alguém viveu em seu tempo passado. O futuro será apenas uma ficção, porque é o presente que planta as sementes de um passado que vai ser colhido com alegria.
     A vida campestre é uma janela que abrimos, como nossas memórias que nos trazem um sol que brilha diferente, revelando as cores naturais e não o artificialismo de espaços iluminados.
       Vivemos da memória e construímos outras memórias. Somos um eterno vai-e-vem de lembranças. Abrimos as portas das coisas alegres e fechamos, sonoramente, tudo aquilo que nos traz a infelicidade e a tristeza.
       Cultivamos em nossas mentes uma vida campestre. Plantamos sementes quando somos felizes em nossas realizações e retiramos as ervas daninhas dos nossos arrependimentos e tristezas.
       Somente os bons agricultores podem produzir boas colheitas. Para aqueles que encaram a vida com tristeza, as sementes vão se recusar a prosperar e transformar uma vida campestre em uma vida de desmatamento e solidão.

Origem da foto: Foto de Vince Veras na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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