Crônicas

Movimentos sutis

         Felizes aqueles que podem observar a natureza e encontrar nela a sutileza de seus movimentos. A natureza é silenciosa e é nesse silêncio que o homem, ao vê-la calma e pacífica diante dele, pode entender a sua grandeza, guardada em pequenos movimentos.
        A garça, quando toca a água, deixa um risco como se fosse uma assinatura, como se escrevesse no espelho d’água o testemunho da sua passagem. No entanto, o seu movimento pode ser um motivo para que um peixe se aproxime e possa ser facilmente fisgado. Na realidade, naquele momento, se desenrola uma luta de vida ou morte em busca da sobrevivência. Assim como o peixe, que se sente atraído pelo sutil movimento, imaginando que algo pousou e poderá ser a sua comida, a natureza transfere ao outro que prova a armadilha o prêmio final da contenda.
        Quando contemplamos um rio caudaloso que passa diante de nós, com a calma e o silêncio, uma pedra à mostra, interrompendo a passagem do rio, indica uma luta entre o elemento duro e aquele mais suave. Por anos, as águas do rio contornam a pedra, pontiaguda e desafiadora. Mas toda aquela resistência não consegue impedir que a água dê contorno à pedra, arredondando-a, impondo formas diferentes, até que a pedra, totalmente lisa e sem partes pontiagudas, se entrega finalmente ao poder das águas que a circundaram por anos a fio.
        Um bambu se inclina de acordo com a força do vento. Algumas vezes, o vento é brisa suave que balança com carinho as plantas e por outras vezes ele é a força da tempestade que dobra os elementos. Um bambu, no entanto, não se entrega à luta, ele se curva diante do ser mais forte, não porque esteja cedendo a passagem, mas evitando que algo mais forte o destrua. Um carvalho, fortemente fincado no chão, impõe ao vento uma resistência e, por anos, uma luta se estabelece entre ambos, até que o carvalho, outrora um símbolo de força, esmoreça e caia. O bambu vai continuar ali, observando aquela luta de titãs que não faz parte da sua existência e sobreviverá, como bambu, a todas as investidas do vento.
         As ondas, quando se aproximam das praias, são ondulações que o mar nos entrega, até que se elevam e se enovelam para desenhar os contornos e desabar nas areias. Um surfista navega pelas ondas, cortando suavemente o caudal de águas. Seus movimentos são sutis, seguindo o movimento das ondas até que elas se transformem em marolas acariciando a areia, como a amante satisfeita depois de uma noite de amor.
       Assim, também, o primeiro beijo entre dois enamorados é um quebrar de barreiras de lábios que se aproximam, desfazendo distâncias, e os olhos fechados revelam a sutileza do momento romântico.
        Todos os movimentos nos lembram que a resistência ou a persistência, constantes, são lutas que demonstram o poder do elemento que, supostamente, é o mais fraco, mas justamente ao resistir ou insistir é o que faz toda a diferença na vida. Todas as vezes que tentamos ser aquilo que não estamos preparados para ser, a vida nos molda com seus movimentos sutis de natureza e nos transforma em outros seres.
        O primeiro beijo é o fruto de uma resistência e uma persistência que perseguem juntos o mesmo objetivo. São elementos que se juntam para moldarem no futuro os desejos que nutrem juntos, seguindo, também, os movimentos sutis da natureza humana.

Origem da foto: Foto de Kevin Wang na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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