Crônicas

Sal grosso e crendice

        Medo, esperança, futuro, adivinhação e fé, tudo isso poderia ser enquadrado como uma crendice. É claro, que, como a maioria das coisas, a crendice envolve dois polos: algo de bom e algo de ruim. Vejamos como a crendice pode ser algo bom quando nós estabelecemos a fé como sentimento de crença em algo, alguém que vive em plano espiritual superior e é capaz de mudar o rumo das coisas, alterar nosso plano de vida, protagonizar uma força devastadora que mude a lógica das coisas. E o futuro se enquadra nesse processo de fé, quando estabelecemos trajetórias para nossas vidas. E enquadramos, também, a esperança nesse processo.
       O lado, digamos, ruim seria aquele onde a crendice beira as raias do ridículo e envolve o medo ou fazer o medo em alguém, lançando pragas, amaldiçoamentos, olhares belicosos, como se houvesse um raio invisível que pudesse atingir alguém. Nesse caso, o efeito é mais pela superstição da “vítima” do que, propriamente,  por um poder maligno oriundo das profundezas. Como alguém poderia imaginar que Ele possa dar a alguém esse poder? Se esse poder existe, por certo não tem origem divina.
       Mas existe aquela crendice envolta de mistério gostoso, de um poder materno, de proteção, que se origina nas culturas africanas e incorporamos com o tempo na figura do folclore. As crendices dos nossos avós, por exemplo. Não tanto no mundo de hoje, onde os avós são tão diferentes; as rezas, os provérbios, tudo isso traz memórias de infância.
      Tem também a crendice do jocoso, do divertido, como as crendices do final de ano, com promessas de futuro, com o pular das ondas, jogar flores no mar, tocar na madeira, não passar debaixo de escada, impedir um pobre gato preto de cruzar nossa caminhada, jogar sal no telhado para a chuva passar e a chuva de arroz nos jovens que acabaram de deixar a igreja rumo a uma vida de casal.
      Temos a crendice urbana que passa por não pisar nos riscos da calçada, voltar para casa por um caminho diferente, jogar moedas em uma fonte de água, beber a água de uma cidade como comprometimento de voltar mais uma vez. Esse tocar na estrutura da cidade confunde o moderno com o antigo, preservando uma cultura anterior aos prédios e às modernidades das cidades.
      O amor envolve outras coisas curiosas, como beijar três vezes para poder casar e outras mais ousadas, como coar café em roupas íntimas e dar de beber ao escolhido (será que isso ainda funciona?), ou escrever nas árvores o coração entrelaçado por uma flecha, marcando dois nomes.
      Os amuletos da sorte têm uma função muito importante, como se fossem os companheiros inseparáveis de uma jornada. Do estudante que leva a caneta da sorte, a roupa repetida para vibrar pelo seu time do coração e assistir aos jogos sentado na mesma posição da poltrona. Antes da viagem, marcar alguma coisa da casa prometendo que voltará a revê-la, pisar com o pé direito quando entrar em novo lugar, na busca do emprego, no pedido de namoro ou casamento, ou antes de pisar no gramado para iniciar a partida (e não custa cruzar os dedos)
       Os céticos até que não gostam, mas na hora da decisão eles devem pensar, por que não? Vai que pode dar certo. Enfim, a crendice envolve a fé e a crença de que necessitamos de algo físico para garantir o espírito.
       E o sal grosso? Não custa dar uma temperada nesse molho, não é mesmo?

Origem da foto: Foto de iggii na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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