Opiniões

A arte deve chegar até onde o povo está?

       Há uma frase icônica de Milton Nascimento, escrita entre os versos da música “Nos bailes da vida”: “Todo artista deve ir até onde o povo está”. Muito se questiona sobre o papel do artista, do atleta, daquele que se torna famoso, seja por qualquer motivo, deve se posicionar diante de injustiças sociais ou nas demonstrações de apreço pelo país.
       Milton foi enfático na sua afirmativa, considerando que o artista ou a celebridade, como se passou a dizer, tenham um compromisso com aqueles que os assistem. Claro que na cabeça de cada um cabe uma sentença sobre que assunto for. Para aqueles que ouvem suas palavras, ditos, afirmações ou negações, a perspectiva é outra (ou deveria ser).
        A indústria do cancelamento persegue as celebridades, que também estão à mercê das inconstâncias dos seguidores. Quando o mundo da política contamina corações e mentes, julgar quem se posiciona é muito fácil. E, quanto àqueles que estão em posição de serem julgados, cabe a coragem ou a covardia de se posicionar ou não e ir até onde o povo está, mostrando o que pensa.
        Em um mundo, particularmente no Brasil, onde o conceito de patriotismo varia de acordo com os interesses, o povo sai do seu lugar e vai em busca daqueles que possam representar o que ele pensa; a divisão começa nesse ponto. Porém, nem todos os dizeres envolvem a política, a religião ou alguma instituição do tipo.
     Em recente viagem à Europa, quando estava na fila da imigração, perguntei ao funcionário onde um brasileiro entraria. Ele, com satisfação, me respondeu, ao saber a minha origem brasileira, indicando uma fila onde a nossa flâmula verde-amarela se juntava a australianos, britânicos, americanos e dois outros países europeus. Em pontos comerciais, o português brasileiro era falado, como demonstrado pela flâmula e o seu verde-louro.
         Fiquei, confesso, com uma pontinha de orgulho. Ou quem sabe a surpresa de marinheiro de primeira viagem.
       Na fase adulta, passei a identificar aquele artista que vinha até mim, fosse o atleta, o cantor ou o ator, sendo o homem ou a mulher, uma conexão com o cidadão ou a cidadã; o artista, enfim, englobando a arte em si com o compromisso de combater a injustiça, a divisão e a desconexão com a pátria. Essa passou a ser a condição para serem admirados: para mim, as duas coisas teriam que andar juntas, condição mínima para chegar até onde eu estava.
       Quando Pelé morreu, não compareceram jogadores da primeira prateleira, nenhum jogador famoso (à exceção de alguns, cujos nomes estão no Google) e nenhum técnico. A despeito das palavras que o craque dizia, elas não chegavam até mim, somente o jogador. Mas, afinal, era o Pelé!
        Como rubro-negro, foi Zico, então meu colega de Rivadávia Correa, porém, eu, de um ano posterior, que me fez torcer pelo Flamengo. Até então, o irmão do Edu do América, creio que eu conheci quando jogávamos na quadra que ainda fica, imagino, no quinto andar do velho edifício. Acho que jogamos uma ou duas vezes, em jogo contra, já que a memória não está hoje tão nítida.
        No recente jogo da Copa do Mundo de 2026, entre Brasil e Japão, o jogador que me transformou em rubro-negro deu a declaração de que, se o Brasil perdesse, ele não ficaria triste. No mesmo instante, me perguntei: a despeito de qualquer coisa, um brasileiro não se sentiria triste no caso de uma derrota? No entanto, a minha primeira decepção não foi essa, mas, quando o empresário Roberto Medina iniciou um movimento para separar a Barra da Tijuca do Rio de Janeiro, dentre as personalidades que apoiaram estava o ídolo da nação rubro-negra.  Naqueles dias, eu, novamente, me perguntei se alguém que veio do subúrbio estava indo para onde? Mas o meu julgamento foi pessoal, sem desmerecer sua trajetória como atleta, afinal, era o Zico!
         O “menino Ney”, ao bater o pênalti, pensou onde o povo está, ou apenas pensou no seu ocaso, afinal bem merecido, na minha opinião? Há comentários na internet de que ele, sim, fez um gol. Uma comemoração que nem o goleiro da Noruega parece ter entendido.
         A despeito de ter a alma rubro-negra, aqueles que eu admiro são o Dr. Sócrates, Reinaldo, isso mesmo, do Atlético Mineiro e Maradona, que tentaram ir até onde o povo está (se posicionaram por aqueles que merecem a justiça e a lembrança social). A propósito, ao enterro do Dr. Sócrates poucos ex-atletas compareceram. Ao de Maradona, em plena pandemia de covid, compareceram em peso.
          Afinal, o artista deve ir até onde o povo está ou os seguidores são apenas um espelho que reproduz o que eles mesmos querem ver?

* A propósito, o Flamengo tomaria dois gols do Haaland, mas estou certo de que a Noruega tomaria três. E, caso o Pedro estivesse inspirado, poderia colocar mais dois. E o jogo de transição do Palmeiras é bem melhor.

Origem da foto: Foto de Andrey K na Unsplash
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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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