
Mito da performance
O mundo moderno exige eficiência, estar sempre atento às tendências, seguir modelos que dão certo e, principalmente, produzir. Se compararmos o corpo humano a uma máquina, é fácil perceber que, entre os dois, alguém vai quebrar pelo caminho, senão os dois ou cada um tentando quebrar o seu oponente. Afinal, entre os dois, alguém vai soltar faíscas, seja por um curto-circuito ou chutando o pau da barraca.
Saímos de casa para trabalhar em equipe e fazer parte da construção do sonho de alguém, que é o empreendedor, e a pergunta seria: por que não fazemos o mesmo com os nossos sonhos?
Vestimos a camisa de alguém e permanecemos nus, ou necessitando vestir alguma coisa ou o mindset, que significa um comprometimento, uma busca para se tornar cada vez melhor e ter foco. A pergunta retorna dizendo: foco em quê ou em quem? Naquilo que os outros nos pagam para fazer? A lógica do mercado diz que o retorno é um salário em troca do seu comprometimento. Logo, não lutamos por algo nosso e, ao mesmo tempo, somos equipes quando cada membro disputa entre si a possibilidade de ser o chefe, o líder a ser seguido. Em um mundo onde o emprego se torna cada vez mais difícil, colocar a ideia do empreendedorismo na cabeça de cada um significa que a responsabilidade não está mais na fábrica, mas em cada um: não tem lugar para todos, e a questão é: salve-se ou vire-se quem puder.
O conflito humano está entre ser humano ou máquina, e, como máquinas, precisamos, para viver, que os algoritmos nos guiem ou nos vigiem, para sermos mais eficientes e produtivos. Assim como a máquina, por exemplo, tem uma vida útil, sendo, no caso, a máquina ficar obsoleta ou, simplesmente, as peças deixarem de ser fabricadas. Como seres humanos, nossa vida útil também tem prazo, quando deixamos de ser úteis ou produtivos, e somos lançados em algum lugar sem o direito à reciclagem que as máquinas possuem.
Estar em silêncio é um sinal de derrotismo, afinal todos devem estar ligados nas últimas ideias e notícias, ser especialistas em quase tudo e fazer do achismo uma arma de conhecimento, desde que perfeitamente articulada, como toda máquina deve fazer; ligada na eletricidade, funcionar todo o tempo, e todo tempo on-line.
Quando toda a nossa vida se resume a mirar gráficos de eficiência ou fazer parte do balanço da firma, no embaralhado de números, onde está cada um? Em qual ponto do gráfico a nossa cor aparece mostrando a nossa contribuição? Afinal, não somos mais empregados ou funcionários, somos colaboradores; uma palavra bonita que encerra o mito da eficiência, da produtividade e da falsa amizade.
A enfermidade do excesso de trabalho nos leva a desmontar o mito. O ócio é o momento em que paramos, damos uma pausa na vida e pensamos sobre ela. Somos os seres produtivos que repetem as palavras da moda, mostrando conexão com o mundo virtual dos vencedores. Somos fantasmas de nós mesmos, que se olham no espelho e sentem a prisão em volta, porque, no dia seguinte, vamos vestir as nossas fantasias e cumprir o nosso papel na grande competição da produtividade.
Se perguntássemos a uma máquina, e ela pudesse responder: o que você gostaria de ser? Ela, talvez, nos respondesse: ser como vocês e procurar não construir máquinas como nós.
Origem da foto: Foto de Kolleen Gladden na Unsplash
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