
Graça imperfeita
O idílico significa tudo o que é ideal e perfeito. É a beleza definida pelo consenso das pessoas e o padrão a ser adotado, dependendo da época. A beleza já assumiu muitas definições: o que foi belo passa a ser desprezado e o inverso acontece no futuro. Vemos a beleza no sentido da perfeição, naquele impacto quando temos o objeto diante dos nossos olhos. Ser belo tende a ser venerado, admirado e copiado para que o padrão se espalhe entre as pessoas.
Mas o belo também tem os seus problemas. A beleza esconde os detalhes, como um quarto perfeito e arrumado e, por dentro dos seus armários e nos seus cantos escondidos, tudo o que é feio está submerso. A beleza assume seus ares de aparência onde tudo é, aparentemente, belo. A beleza assume a nossa cegueira daquilo que é complexo e difícil de entender. Não entendemos o belo se não entendemos o todo, se não entramos nas entranhas dessa beleza para encontrar as suas imperfeições.
Quando vemos uma bela imagem na televisão, nos cartões-postais com praias, montanhas e monumentos, não pensamos na vida que acontece dentro dela. As amarguras das pessoas que caminham por aqueles lugares pensando nas suas vidas não importam as belezas que as rodeiam.
O contrário do idílico está nas imperfeições, nos detalhes que não notamos ou fingimos que não existem, para não estragar o belo. Uma bela carreira pode ser a culminância de muitos ferimentos e amarguras pelo caminho, incluindo as decepções das primeiras derrotas. A beleza do sorriso da miss que vence uma disputa esconde toda a luta para chegar até ali, assim como os sorrisos dos astros do cinema e do teatro que passaram por maus momentos, antes de pisar em um palco e serem admirados. Do científico que ganha o prêmio máximo em sua categoria e os momentos de largos anos entregues ao estudo de uma teoria, considerada por muitos como irrelevante.
O avesso do idílico está na convivência do que é óbvio e do que não é, e na dificuldade de manter uma identidade quando desejamos ser outra pessoa. A metáfora é perfeita quando significa uma luta. A beleza do idílico é óbvia, mas a do seu contrário é significativamente árdua, e nela há uma beleza rara e inalcançável para muitos.
O avesso do idílico está na aceitação do fracasso, como um sinal de que é possível alcançar, mais adiante, a meta desejada. Ser quem realmente se é significa um ato corajoso diante dos outros, a autenticidade é muitas vezes desprezada por aqueles que não aceitam a luta, e veem no ato corajoso dos outros algo sem sentido e fora do comum: a revolta é a mais bela atitude diante dos padrões que insistem em ser o sinal único da humanidade. O ser coletivo é redundante quando o avesso dele é sair de onde estamos para encontrar outros mundos.
O belo envolve o engano e a ilusão de estar diante de algo tido como belo e não ter a coragem de dizer o não do óbvio, contra os padrões impostos. Uma bela mulher ou um belo homem podem ser aqueles que, esteticamente, se apresentam perfeitos, mas podem ser também aqueles que têm atitudes soberanas, e esse belo se transforma diante do novo contexto: a admiração. Não ter mais a ilusão nos traz uma leveza de vida. A realidade, quando supera a fantasia, assume ares de idílico, de ideal, da luta diária pela sobrevivência.
Portanto, a celebração do belo esconde defeitos e detalhes que nos causariam asco. De onde se origina o belo que vestimos, calçamos ou comemos? Se sua origem é da exploração do outro, a beleza é inimiga e abjeta. O belo é um estado de espírito, e quanto mais perto do real, o seu avesso também se configura no mais belo.
Origem da foto: Foto de Jeremy Bishop na Unsplash
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