Crônicas

Onde a força não é apoio

        Quando olhamos o mar, como um gigante de águas calmas, imaginamos um ser invencível e capaz de mudar a geografia, modificar ambientes, destruir obras humanas ou, simplesmente, o reduto do lazer e do sustento de muitos. O mar é uma força tão deslumbrante que o nosso olhar se perde ao contemplá-lo; ele atrai o olhar do curioso que fica imaginando, desde a praia, o que existe depois da linha do horizonte. Mesmo sendo dono de uma força incomparável, ele é transparente e facilmente cortado pela âncora, que o rasga para estabilizar a embarcação na superfície. Homens, durante séculos, o tiveram como temor e o enfrentaram com coragem. De volta, o próprio mar engoliu expedições e sonhos e encorajou muitos a desbravá-lo, penetrá-lo e tentar encontrar em suas entranhas outros tantos que ali naufragaram.
        No entanto, esse mesmo mar que move o mundo não é capaz de reter aquela âncora que estabiliza. Ele se permite penetrar ou é inerte diante de uma força pequena, mas capaz de desestabilizá-lo?
       Quando seguimos pela vida, imaginando projetos futuros, o próprio futuro é gigantesco e colossal diante do presente que vivemos. O futuro é como um mar de possibilidades, cheio de surpresas e pronto para receber os aventureiros que vão desbravá-lo. Ao mesmo tempo, esse futuro engole as possibilidades de realizações e de sonhos. Os sonhos são como âncoras que lançamos em busca da estabilização e, no mesmo instante, esse futuro pode se transformar em uma tormenta incontrolável, pronta para engolir os nossos projetos.
       Em realidade, nossos sonhos são grandiosos e, ao mesmo tempo, como o mar, não têm, muitas vezes, essa força para continuar. O destino nos prega peças e, como os navegadores que se lançam ao mar, somos engolidos e naufragamos com nossas ideias e conceitos.
       Nada se compara à força dos sonhos que seguem firmes para enfrentar o futuro e um mar de surpresas e armadilhas. Quando projetamos o nosso mundo, ele é repleto de aparências, assim como os navegadores, que sonham descobrir o que está mais além da linha do horizonte, somos os aventureiros de nós mesmos, tentando enxergar mais além e poder ultrapassar obstáculos, pequenos horizontes colocados no caminho para serem desafiados.
       A euforia que sentimos nos primeiros anos do descobrimento da vida são os ventos que tentamos inflar para levar as embarcações dos nossos sonhos, singrando o mar revolto do futuro. Como é difícil lançar raízes onde não existem o sólido e a realidade imaginada para que ela germine? O futuro está diante de nós, mas a dificuldade maior é encontrar os meios para singrá-lo e vencê-lo.
    Quando singramos os mares, não vemos o abismo sob os nossos pés. Quantos perigos rondam a embarcação que usamos e quantos mundos não encontraremos, e quantos outros nos surpreenderão. Viajar ao futuro é algo que não podemos controlar porque, ainda que rejeitemos a viagem, a própria viagem vem ao nosso encontro. Resta não levar muitas âncoras para se apoiar, mas sim inflar com o vento da euforia as nossas vidas rumo ao futuro final.

Origem da foto: Foto de Matt Hardy na Unsplash
SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS
#AventurasDoFuturo#ForcaEDestino#DesbravandoOAmanha#SuperandoObstaculos#NavegandoNosSonhos#HorizonteDePossibilidades#OndeAForcaNaoEApoio

Views: 5

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post