
Memórias na cadeira de balanço
A música toca, nós a ouvimos e, de repente, algo vem à memória e nos coloca em um transe temporal. As lembranças chegam, rostos aparecem e sons que havíamos esquecido ganham vida. Nossas memórias se aconchegam e, como uma cadeira de balanço, nós somos lançados em outro universo, aquele universo que não mais existe e somente resiste dentro de nós.
Um cheiro que sai de uma padaria, de uma loja de doces, um cartaz anunciando aquela guloseima antiga que não mais existe são lembranças contidas dentro de uma nuvem. Somente o cartaz, dessa vez emoldurado, decora uma loja qualquer como um aviso de que aquele tempo foi congelado e já não mais vende o confeito, mas continua ali anunciando o passado.
Passar por uma rua que nos viu caminhar por dias, anos, agora transformada e rodeada de prédios estranhos, e a nossa mente vai reelaborando o percurso e “vendo”, como um borrão de filme antigo, as casas que conhecíamos antes.
Memórias são mapas de coisas inexistentes, são papéis esquecidos nas gavetas, são sombras que nos assustam ou nos fazem sorrir.
Se as memórias nos fazem reviver lugares conhecidos e vividos, sentiríamos saudades de algo que nunca vimos e parece que um dia estivemos lá?
Nossas vidas são preenchidas pelos desejos que não satisfazemos. Ver as fotografias ou ouvir os comentários de alguém que esteve lá, nos faz pensar o que nos impede de fazer o mesmo. Claro que essa pretensão também envolve o poder financeiro de ir, além do desejo de aventura de romper e seguir.
Viver o mundo é criar memórias de coisas distantes, é preencher um vazio que temos e a coragem de decidir ir, conhecer e tocar. O aventureiro é um criador de memórias sem cadeiras de balanço, é um inconformado com a rotina que sai para perseguir o que o seu olhar alcança e a sua imaginação concebe.
Nossos olhares anseiam por imagens e cenas, figuras e personagens pelo mundo. É como sair de uma fotografia e tocar o outro lado, o estranho e o inusitado. Funciona como uma angústia e uma dor que não se mede. Encher os olhos e preencher o álbum das memórias, é alcançar mais além do que o conforto da cadeira onde balançamos.
Ouvir músicas ou resgatar cheiros e lugares que já vivemos é rico para aqueles que têm corpo preparado para absorver o mundo. Esse balançar deve se transformar no chacoalhar da mente e se preparar para ir, em definitivo ou não. Quem sabe, nessas andanças da vida, encontraremos o real lugar para viver? Voltar para casa com memórias é uma mala cheia de fotos e leve para transportar.
Viver e experimentar fazem parte dessa construção de memórias. Somos corpos que navegam carregados de lembranças, e a nostalgia da distância funciona como o motivo para não negar o desejo de aventuras.
Origem da foto: Foto de Tolga Ahmetler na Unsplash
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