
Magia da palavra
Existe um elo entre o conhecimento e a transformação desse conhecimento em palavras. São as palavras que transformam o indivíduo, seja para usá-las no sentido de constranger, seja para elevar alguém do chão da ignorância ao patamar da compreensão da realidade; sempre respeitando o seu ponto de vista. Esse ponto de vista é criado a partir das vivências de cada um, e determinado pelas suas vivências.
Entre o que existe na imaginação e aquilo que vai se transformar em ação está a figura daquele que sobe ao púlpito para traduzir, o que o pensador gerou, em palavras simples e explicativas: um professor.
A figura de um professor entra nessa magia, ao fazer a ponte entre o abstrato e o concreto. A partir de modelos práticos, ele trabalha para realizar o sonho de cada um: tentar ser aquilo que se deseja. No entanto, não cabe a ele dizer que caminhos seguir, mas mostrar os caminhos e as escolhas possíveis, porque todos nós somos frutos dos nossos desejos e das escolhas que fazemos ao longo da vida.
Uma ideia é o germe de um desejo, de uma obsessão pelo objeto. Não basta somente ter a ideia e elaborá-la, é preciso que haja uma vontade inaudita para fazer dela um objeto de desejo. Ao mestre, através do conhecimento que transmite, cabe tornar a ideia de cada um em uma convicção; acreditar, antes de tudo, e ter a vontade de transformar a vontade em ação.
Um mestre é, antes de tudo, um solitário e um portador da voz que vai transformar pessoas. Ele pode usar a arte de convencer, sem interferir naquilo que norteia o pensamento de cada um. Ele é também o muro que se interpõe entre as vontades e o respeito ao outro que pensa diferente. É permitido pensar diferente, mas é desumano tratar o diferente como aquele que não pode pensar fora do perímetro obtuso de uma visão de mundo.
Ver o mundo recortado é uma desculpa para aquele que não aceita a universalidade de pensamentos. O recorte do mundo somente enquadra aquilo que se quer ver. Cabe ao mestre mostrar os dois lados de uma moeda, e permitir que os dois lados se contraponham. E, mesmo que não cheguem ao lugar comum, cada lado deve tentar entender que o seu recorte não é a universalidade, mas o bolsão das suas próprias resistências para entender os seus erros e os acertos dos outros.
A palavra é o cinzel que esculpe a estrutura de um pensamento. Ao usá-la, a sua magia se reverte na maldição ou na redenção. Ela maldiz quando é usada para oprimir, com argumentos fúteis, um pensamento coberto de preconceitos. Ela é redentora quando procura fazer o outro pensar por si mesmo, longe das amarras dos preconceitos e das amarguras.
Ao mestre, o caminho a seguir é duro. Tentar usar a magia das palavras para manter um diálogo aberto. No seu âmago, a palavra significa a mesma coisa para qualquer lado, a sua magia está em poder ser manipulada e usada para convencer o abstrato que a sua existência será inútil.
A palavra é fantasia, quando se reverte da máscara da falsidade, para transformar a realidade em ficção. Quando sua amplificação tenta se passar por autoridade única ela dita comportamentos e causa rupturas, ela é branda quando a atmosfera amorosa se apossa dela.
Não há magia sem mágicos, e somente um mestre pode tirar da sua cartola de conhecimentos o argumento sério que vai persuadir contendores de que a opinião individual e teimosa leva aqueles que se recusam a entendê-la à solidão dos perdedores.
Origem da foto: Foto de Element5 Digital na Unsplash
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