Crônicas

Final dos tempos

       A todo momento se anuncia o final dos tempos. O tempo é efêmero, não tangível e perceptível como o vento que passa, em que sabemos da sua existência e apenas sofremos as consequências boas ou más da sua presença. Quando pensamos no final dos tempos, devemos incluir o final do tempo de cada um. Apesar de tudo que possamos ter feito, ninguém vai lembrar disso, até que os assuntos nas conversas diminuem nas lembranças, levando cada um o seu tempo, como uma corrente que se esgarça e nunca termina: por isso, o tempo ou os tempos serão eternos.
       Em outro significado, o final dos tempos é a morte, uma fatalidade real e que nos espera em algum momento desses tempos que vamos vivendo. Assim como as lembranças morrem, também os objetos que nos cercam vão perdendo a vida, como o aparelho que se torna obsoleto, a moeda que não tem mais valor, o relógio que para de funcionar porque suas peças já não mais são fabricadas e até a comida que nos alimenta e que esquecemos de guardar ou manter em lugar apropriado se desfaz. Isso tudo significa o final de alguma coisa.
        Vivemos em um hiato na vida, onde do antes não temos lembranças e do posterior, que é uma incógnita. Tentar entender o desconhecido é um tipo de morte para o que ficou para trás. Porque avançar é deixar morrer aquilo que nos desgosta e criar, no futuro desconhecido, a nova vida que podemos construir.
       Objetos obsoletos e antigos se tornam peças preciosas para os colecionadores, assim como o conhecimento adquirido se torna o motor do desenvolvimento futuro; nem sempre a “morte” é o final de tudo, afinal das contas.
     Nem sempre a finitude é o final de todas as coisas, mas a passagem das coisas sobre nós e de nós para o mundo. Ninguém “mata” o conhecimento e ninguém é capaz de eternizar coisas. Morrem as coisas más e nos deixam marcas, e vingam as coisas boas e nos fazem ser melhores no futuro; esse é o significado da transitoriedade em nosso mundo.
      Não falar sobre o fim não impede que ele aconteça. Sonhamos que uma vida pode ser melhor longe daqui, sem ter a menor ideia de onde viemos, logo, como podemos conceber um nada além de nós? Por isso, durante a vida, a coragem de encarar nossos problemas é uma forma de manter viva a ideia da nossa passagem. Não se pode entregar ao efêmero toda uma existência, seja ela pobre ou rica, triste ou alegre.
       Somos a consequência das nossas atitudes. Por isso, precisamos olhar para os nossos corpos como um maquinário que necessita de eterna manutenção; não que isso impeça o seu envelhecimento, mas, sobretudo, ele preserva ,no melhor tempo possível, as possibilidades de se “adiar” o final dos tempos.
      Poderíamos dizer que o final dos tempos é quando desistimos da vida ou pensamos em sair dela. Existirá um final para todos, e como chegaremos até ele depende de cada um de nós.

Origem da foto: Foto de Natalie Pedigo na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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