Crônicas

Felicidade do retrato

        Quando folheamos um álbum de retratos, vemos sorrisos congelados pelo tempo. Relembramos sorrisos e confraternizações, mas somente nossas memórias guardam aquilo que foi dito, como foi feita a cena, como estava o dia e, principalmente, o que éramos. Fotos antigas de parentes que não existem mais nos fazem pensar sobre o que aquelas pessoas sonhavam, o que desejariam ser e quais desejos e esperanças em relação ao futuro.
        A inteligência artificial é capaz de refazer ou criar movimentos para os rostos congelados no tempo. É como se fosse uma janela que o tempo abrisse para “conversar” com aqueles que já se foram. Esses movimentos são um retorno do tempo, abandonando sorrisos e confraternizações congeladas no papel de uma fotografia guardada nas gavetas e esquecida pelo futuro.
      O congelamento das fotos é como o armazenar de uma juventude e, como a última morada, é como uma paz que nos causa inveja. Que bom seria se pudéssemos congelar nossos bons momentos e sempre revê-los ou revivê-los, e os maus momentos fossem uma revelação que não deu certo, fossem imagens borradas e impossíveis de serem reveladas.
        Pessoas tiram fotos de alegrias e não de choros ou desespero. Fotos de tristeza vão para as páginas dos periódicos para entreter aqueles interessados na derrocada do outro, seja por interesse humanitário ou para menosprezar alguém. Nas imagens nas redes sociais, o congelamento da felicidade toma sentido quando aquele que posta deseja exibir algo que, algumas vezes, não sente.
        Congelar a felicidade é o objetivo de todos. A felicidade que existia quando os sonhos começavam e o futuro não era uma incógnita, mas um lugar de esperança e da certeza de que tudo daria certo.
        O momento de tristeza no futuro se conforta quando encontra a fotografia de um passado cheio de esperanças. Poderia ser um recado do passado de que tudo vai acabar bem, que o importante é retomar a trilha abandonada e tentar novos ares? A felicidade congelada no retrato seria a de mostrar que ainda é possível ser feliz?
       As máquinas iniciais pediam uma pose, uma atitude formal, como se aquela cena devesse ser a testemunha para as gerações futuras. Talvez a lembrança de alguém que se perfila com respeito, mostrando ao futuro o que eles foram. Fotografias se tornam importantes na medida em que falam de alguém que o tempo emudeceu, contam histórias vividas, são as provas das nossas existências como se nos mostrassem, ao vê-las, que o futuro cabe aos novos moradores a função de manter os elos familiares.
      As fotos congeladas pelo tempo mostram o inimigo que não mais nos amedronta e os amigos que nunca mais veremos. Até que um dia seremos as fotos que perambulam pela internet, pinçadas por algum algoritmo de busca, e as pessoas vão se perguntar quem eram aquelas pessoas que sorriam e conversavam em uma foto. Por curiosidade podemos dar-lhes movimentos que nunca fizeram ou dizer palavras que nunca proferiram. Descongelar o tempo para reviver o que nunca foi vivido é dar movimento ao que nunca deveria ser mexido.

Origem da foto: Foto de Shaurya Sagar na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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