Equilíbrio das incertezas
Imagina você viver sem preocupações, um tempo onde os infortúnios causados pelo stress cotidiano não existissem? As coisas funcionariam nos seus horários e bastaria você sair de casa e cuidar de tudo sem contratempos? A insegurança das ruas sumisse e os carros e pedestres se movimentassem ordeiramente pelas ruas? E o acaso seria eliminado e as engrenagens das nossas vidas funcionassem.
Em um mundo assim, não existiria a dúvida, porque, se as coisas caminhassem com perfeição, não teríamos as opções das escolhas: a própria engrenagem nos traria as satisfações e as escolhas não existiriam. O amor seria um pouco de paixão e o acerto daquele ou daquela que atende às nossas expectativas. É claro que, para isso, as “almas gêmeas” não se encaixariam nos nossos padrões pessoais de beleza, porque as duas coisas seriam dificílimas de serem atendidas. Ou seja, a perda da escolha seria a penalidade para um “encaixe” perfeito de personalidades. Por isso, a paixão seria algo irrelevante e desnecessário.
A consequência disso seria a eliminação do caos, tanto da dinâmica das cidades quanto dos sentimentos pessoais. O mundo se equilibraria, simplesmente, pela ausência da dúvida; por que duvidar de algo que vai atender os nossos desejos?
Se o amor se encaixasse nessa perfeição, a vida profissional tomaria outros rumos, porque, em um mundo perfeito, as pessoas fariam aquilo que fosse o mais prazeroso e não haveria a preocupação pela sobrevivência; afinal, em um mundo perfeito, por que alguém estaria preocupado com isso?
Nesse caso, onde ficaria o tédio?
Não havendo o tédio, também não haveria a busca por soluções, não haveria desencontros e tampouco dúvidas. Havendo somente o contentamento, onde estaria o descontentamento que força a humanidade a buscar novas ideias e soluções?
Esse dilema entre as certezas e as incertezas proporciona o caos, mas também proporciona a criatividade. Mas, reforçando tudo isso, o que poderíamos dizer sobre as enfermidades, muitas delas causadas pela desordem urbana e pela desinformação? Muitas das doenças que nos acometem, inclusive as mentais, podem ser fruto das inconsequências da humanidade. Em um mundo perfeito, não haveria as “perfeições” vendidas pelas celebridades, comentando os seus mundos perfeitos que não cabem em nenhuma realidade, somente na virtual.
Duvidar é, antes de tudo, um ato de rebeldia. Se questionamos algo, é porque estamos, de fato, buscando a perfeição, embora dentro do equilíbrio das incertezas. Nada é mais dinâmico do que a busca, o caminhar e o encontro com a verdade.
As incertezas significam o bem-vindo arejamento das ideias e o confronto, e a necessidade de checar na realidade o que trazemos dentro dos nossos pensamentos.
Nada mais inseguro do que imaginar que estamos em segurança. Nos equilibramos nas incertezas e as dúvidas são as nossas vias de escape. Duvidar é, antes de tudo, administrar o incerto e saber que por trás dele está a solução que aperfeiçoa nossa existência.
Origem da foto: Foto de Elena Mozhvilo na Unsplash
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