Crônicas

Persistência

        Persistência é uma das qualidades valorizadas em todos os campos de atividade humana. Ser persistente em perseguir objetivos, metas, qualquer coisa que tenha valor para a sociedade ou para o indivíduo. No entanto, a qualidade de ser persistente envolve também outras atividades do ser humano; isso conta tanto para o bem como para o mal.
        Ser persistente em si é como velocidade sem controle e ser nada. Obstinação também é uma persistência. Um ser obstinado pode ser um aventureiro ou pode ser alguém buscando vingança.
       Podemos dizer que a persistência realiza o impossível. Mas é um paradoxo, porque se alguma coisa é impossível, a persistência por si só não basta. E voltamos à questão da velocidade sem controle não ser nada. Simplesmente é uma velocidade, alguma qualidade que algum possa ter, inclusive uma máquina. E não há nada mais persistente que uma máquina, desde que não falte energia para mantê-la funcionando.
       Persistência sem um objetivo claro e que traga benefícios é uma perda desnecessária de energia. E, nesse caso, a energia que colocamos na persistência é que vai dar o gás necessário para ela.
      Primeiro, precisamos calcular, com frieza, se aquilo que queremos é alcançável, se é possível, dadas as circunstâncias que nos envolvem, gastar nossas energias e ser persistente.
      O contrário disso é persistir no erro. E persistir no erro é a grande faceta da humanidade. Essa persistência no erro nós observamos nas redes sociais, nos debates insanos entre “especialistas”, um mundo onde não se acredita nos fatos científicos, mas nas ideias absurdas que abundam as cabeças.
      Vivemos, de fato, em um mundo irreal. Isso me lembra quando se dizia que a realidade que vivemos não é a realidade de fato, mas uma realidade fabricada. O fenômeno da internet nos trouxe, de forma prática, essa outra realidade. Vivemos nela, respiramos nela, e nela buscamos uma forma de procurar o lugar no mundo. Contada pela quantidade de likes que recebemos ou não.
     Volta e meia, vemos essa população persistir em um pensamento não porque seja verdade ou não. É mais confortável ler aquilo que nossas mentes desejam do que nos questionar e colocar em xeque as nossas ideias de vida.
      A persistência de alguns que teimam em difundir absurdos como verdades é a tal velocidade sem controle. Essa persistência não é nada. Não leva a lugar algum. Ou, pelo menos, leva alguns para viver o vazio da existência.
     Essa persistência em seguir falsos gurus, falsos especialistas, conhecedores em coisa alguma, com argumentos pífios e desprovidos de sanidade nos levará, a todos, para um lugar não desejado: a irrealidade de fato.
     Essa persistência é uma estratégia. Pelos que a realizam com o objetivo claro de confundir fatos reais de fatos falsos. E pelos que os seguem, carregados com ódio infundado por aqueles que tentam abrir os seus olhos, persistentemente fechados para as mudanças.
       Persistir em continuar o mesmo, sem sair do lugar, é a persistência do perdedor, que já nasce pronto.

Origem da foto: Foto de Maksym Kaharlytskyi na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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