Onde o nosso ser guardou o sol
A caminhada do sol em um ambiente tem ar de vida sem controle. Não podemos impedir que ele passe por determinado ponto e, também, não podemos mudar a sua trajetória. Embora as estações do ano ou o ponto onde estamos no planeta interfiram na sua trajetória, ele vai de um ponto a outro sem se importar com a nossa presença. Ele tem ar de onipotência porque a sua existência torna possível existirmos aqui.
À medida em que ele avança, vai clareando as partes escuras das florestas, das casas e dos rincões bem distantes de nós. Em seguida vai completar o seu ciclo do outro lado do mundo, como um laser que vai ferindo a terra.
O tempo passa por nós como o sol que caminha sobre a terra. Conforme o passado se agiganta, ele se transforma em um casarão que abriga todas as nossas memórias. Mas esse casarão não está isento da claridade. Por entre as suas estruturas, pedaços de luz insistem em iluminar as partes obscuras da nossa mente. São as memórias às quais recorremos para rever o passado que nos trazem sorrisos ou decepções. Os primeiros são frutos de momentos deleitosos que tivemos ou fontes de aprendizagem para experiências no presente. Gradativamente, vamos iluminando pedaços de lembranças como um sol que passa pela terra.
Podemos dizer que os momentos de alegria são as frestas de luz que o sol deixa por entre as frestas do casarão, luzes que iluminam nossa mente e se transformam em sorrisos, que nos fazem sorrir sozinhos.
As nossas infâncias e os nossos grandes amores são janelas que abrimos e deixamos sair delas o sol que guardamos somente para nós. Esse sol não transita, ele é estático como um foco de luz e a fonte de vida que existe em nós.
Já adultos, vemos o sol iluminar a nossa casa e a sua caminhada sobre uma mesa de café da manhã é o ponteiro do relógio temporal que, embora não o vejamos, anuncia que o dia começa e a nossa jornada também. O cheiro do café invade a nossa alma e vozes guardadas nas lembranças vão se formando e caminhando, como sol que guardamos dentro de nós.
Algumas vezes, lembramos de manhãs ou de entardeceres que anunciavam o dia em que conhecemos alguém especial ou quando voltamos para casa com ares de vitórias depois de um dia de conquistas. Nada se compara a esse sol tão particular que habita dentro de nós, capaz de iluminar ao trazer lembranças desse casarão de aventuras que acumulamos ao longo das nossas vidas.
Nossos dias difíceis precisam ultrapassar essa linha entre o hoje e o ontem para que encontremos do outro lado o sol que guardamos.
Ao final do dia, quando a noite abraça o mundo, sempre encontraremos o sol que guardamos para nós esperando como um animal ansioso por nossa presença. São os momentos de calmaria quando deitamos e, no meio da escuridão do quarto, abrimos uma janela na memória e vamos pesquisar, nesse casarão de lembranças, aquelas que o nosso sol vai iluminar.
Origem da foto: Foto de Dawid Zawiła na Unsplash
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