Crônicas

Despertar do silêncio

        Há algo escondido no ar que leva as pessoas a fazerem coisas, aparentemente aleatórias ou não. É como um vírus que desperta as mentes e faz, desde a criação ao ato, com que se transformem e passem a ser o que elas realmente são; um despertar vindo do silêncio. Uma teoria conspiratória é um tipo de vírus que fermenta ideias e se propaga como o vento, uma tempestade que arrasta multidões. Nem bem se sabe o porquê, mas é um tipo de rastilho que vai incendiando corações e mentes, ainda que possam ser mentiras bem elaboradas para os alertas e nem tão bem elaboradas para aqueles que se sentem representados.
        O catalisador pode ser uma insatisfação ou uma satisfação das pessoas. É puro impulso gerado de um nada ou de algo sem sentido.
        A dúvida pode gerar situações que emperrem as evoluções pessoais ou das sociedades. Um discurso bem elaborado pode ser o fermento, o catalisador que invade as pessoas e toca nos seus brios ou nos seus pecados: um pão bem feito atrai as pessoas, o não tão bem feito causa azia e mal-estar.
        Uma mentira tem a capacidade de se multiplicar rapidamente porque ela se encaixa nos pensamentos mais mesquinhos e retrógrados. É mais fácil mentir do que buscar a realidade dos fatos, porque a realidade desagrada a muitos que se vestem com a capa do moralismo, ainda que esse moralismo seja apenas uma opinião pessoal sobre tudo. A mentira pode ser grande ou pequena, e o seu tamanho não tem a menor importância porque ela desperta o silêncio daquele que imagina um mundo comandado por um sentimento único: o amor-próprio de cada um.
      Mas a ideia surge de um silêncio absoluto? Ela pode funcionar como um ser que desperta e, subitamente, assume a realidade e se converte em fato. Uma ideia é gerida por um catalisador infalível: a consciência que reflete e pensa todos os caminhos a percorrer. Um insight tem o poder de vislumbrar uma outra dimensão, ele vê onde ninguém mais enxerga e ouve onde ninguém escuta. A ideia seria o catalisador máximo da engenhosidade humana. Quando ela surge, para os iniciados, desperta um sorriso de vitória onde todos só podem ver o próprio silêncio da ignorância.
       A idiotez também seria algo que surge de um silêncio absoluto? Neste caso, trata-se de eco, de um vazio, onde a própria capacidade de elaborar algo é surreal. Muitas vezes, temos vontade de perguntar se alguém, realmente, acredita no que diz. Os olhos revelam, no entanto, essa estranha capacidade de acreditar no impossível, não no sentido do irrealizável, mas do inconcebível. Sua capacidade de propagação é extremamente rápida porque, sendo simples e redentora, para alguns reacionários não exige reflexão, mas somente a vontade de catalisar o sentimento e propagá-lo no terreno fértil da ignorância.
       Assim como um ambiente propício para se reproduzir, as formas de pensar necessitam do tempo, da dedicação e da vontade de fazer. Um pensador leva anos a fio elaborando uma tese até que ela se transforme em libelo da humanidade, desde que aceita por pares. Um ignorante acorda um dia e decide como o mundo deve funcionar, levado apenas pela sua frustração, despeito ou inveja. Os dois têm a capacidade de mudar o mundo. No entanto, o primeiro tem dificuldade de gerar outros pensadores. Quanto ao segundo, a sua reprodução é muito rápida porque não há necessidade de entender e compreender os seus atos.

Origem da foto: Foto de Jan Huber na Unsplash

SUBSCREVA PARA RECEBER NOVOS POSTS

#DespertarDoSilencio #FilosofiaContemporanea #CombateAFakeNews #PensamentoCritico #SociologiaDoCaos #CronicaAutoral

Views: 5

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

Obrigado por curtir o post