Entre o pensar e o dizer
Se pensamos na palavra limiar, à nossa mente não vem uma linha definida, como se fosse uma fronteira entre dois espaços, sejam eles reais ou imaginários. Limiar nos traz uma ideia de portal, aquele ponto que atravessamos rumo ao desconhecido, ainda que ele seja alvissareiro e brilhante. Não, o limiar pode ser aquele minuto ou segundo em que a nossa respiração em suspenso pensa no que fazer.
Em uma discussão acalorada, esse limiar se rompe e dizemos coisas que estavam guardadas e retidas pela censura, pela educação ou por outro motivo qualquer. Nesse momento, como um dique, as águas rompem o anonimato e revelamos aquilo que pensamos: seria o tal ato falho.
Entre aquilo que pensamos em nosso íntimo e o que podemos revelar ao mundo, esse limiar não é uma ponte, mas um fator de impedimento. Assim como as escolhas que devemos fazer em um minuto, esse limiar é como alguém nos olhando, apreensivo ou não, com ares de aventura ou de medo, aguardando o que vamos fazer a seguir.
Na vida cotidiana, o limiar é um ponto de referência quando temos um desafio e devemos tomar uma decisão. O momento em que recebemos uma proposta e percebemos que aceitá-la seria tomar um rumo diferente na vida. Quando sofremos uma decepção qualquer, o limiar nos coloca entre recuar e absorver o golpe ou reagir e mostrar o que somos. O limiar pode ser o início de uma vingança, como uma revanche pessoal, ou pode ser demonstrar que não somos capazes de ir além, e cabe a outrem ou às circunstâncias estar no outro lado e seguir em frente.
Decisões são como o limiar entre a madrugada e a manhã. Aquele momento em que o sol começa a sua caminhada e vai transformar nossa vista. Da noite para o dia, são poucos segundos até que o sol ilumine tudo. Podemos ter um dia iluminado ou um dia sombrio, assim como as decisões que nos arrastam para o desconhecido ou para o deslumbrante.
Quando pensamos nas nossas estratégias de vida, também os limiares são importantes para definir nossos passos. Nem todos são capazes de transpor o portal do tempo e realizar os sonhos, porque os sonhos também estão nos limiares dos desejos. Nem tudo que pensamos podemos dizer ou verbalizar, porque nem tudo está dentro do possível, e os portais do tempo têm o poder de filtrar o possível do impossível.
Entre o pensar e o dizer e o imaginar e o realizar estão os guardiães do portal, os anjos invisíveis que nos guiam. Eles são nossas censuras entre o pensar e o dizer e que vão definir até onde podemos seguir.
Nossos limiares são como as linhas do horizonte que caminham junto com nossos passos e fazem o possível ficar cada vez mais longe. Nossos limiares caminham com nossas experiências de vida e, cada vez mais, abrem novas linhas no horizonte das possibilidades. E assim é a nossa passagem por esta terra. Vamos criando limiares ao longo do tempo e a escolha de cada um definirá nossos arrependimentos e alegrias no futuro.
Origem da foto: Foto de Yosep Surahman na Unsplash
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