Crônicas

Viver no limbo dentro da normalidade

         Estranho isso, né?
       Ao fugir de polêmicas, decidimos equilibrar os ânimos dentro de nós e, para isso, é importante negar o que é imposto como verdades. Embora, em nosso íntimo, quando percebemos que há algo errado no reino das trevas, concordar se torna um meio de sobrevivência. Ou seja, como é estar certo dentro de conceitos que achamos errados?
        Primeiro, temos que escolher o que é certo. Polarizado, o mundo está entre um lado A e um lado B; termos opostos, conflitantes e interessantes para um dos lados. Afinal, se uma parte nos condena, o faz por algum motivo, ou você está certo ou do lado errado.
       Nada é certo na vida. E como a vida é uma constante para quem muda de acordo com o tempo e os interesses, resta saber que as nossas certezas não existem ou parecem não resistir à realidade. Todos têm uma opinião e o mundo pouco está interessado nelas. O que existe, como certo, é que mudar é saudável, tentando encontrar um equilíbrio, negando o que não faz sentido para nós e abraçando o que tem. Se nada faz sentido na vida, embora alguns se julguem certos, a única certeza é que não compreendemos nada do que está acontecendo.
         Esse já é um bom caminho, porque uma parte julga correto seguir as certezas de supostos “experts”, que podem estar errados e quanto menos sentido fizer, para alguns, melhor.
       Existem três inimigos que impedem a nossa compreensão da realidade: a superstição, a falsa ciência e as crenças. Se há uma razão, um norte, uma linha de raciocínio, a superstição, que é a maneira de compreender a realidade a partir de fenômenos que não fazem o menor sentido, é a fuga natural daqueles que não se conformam com que seus conceitos estejam errados.
      A falsa ciência entra como o personagem que vai contrapor a ciência. Se a ciência visa comprovar os fenômenos, para os inconformados, que precisam da falsidade para sobreviver, resta confrontá-la com coisas sem sentido. O importante é demonstrar que se alguém com visibilidade que não faz o menor sentido existir, mas convence aqueles que preferem a superstição e não a razão, pode levar muitos a contestar a própria ciência, embora não tenham embasamento nenhum. Afinal, é muito mais fácil seguir sem pensar um caminho sem obstáculos do que raciocinar com os próprios cérebros.
        Por último, as crenças. Se eu forneço um caminho mágico que explica e orienta todas as coisas, baseado em coisas desconexas, essa falta de raciocínio simplista é a resposta para tudo. Afinal, por que não acreditar em alguém, em vez de acreditar em si mesmo? Coisas assim dão um trabalho enorme.
       Restam aqueles que questionam isso. Ao compreender que a tal normalidade é povoada por crenças, superstições e pseudociência, o limbo é o melhor lugar para resistir. Imagine viver em um mundo sem essas três coisas e ter que pensar por si mesmo? É para poucos, e o limbo é um espaço pequeno para viver e grande demais para entender.
     Portanto, as polêmicas não esclarecem e, na maioria das vezes, alegram alguns e entristecem outros. A arte de polemizar pode ser uma maneira de esclarecer as coisas ou confundi-las, dependendo dos interesses de cada um.

Origem da foto: Foto de Issy Doherty na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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