
Tempo de abreviar
De repente, no meio da correria, alguém para e começa a ver o mundo passar direto, pessoas apressadas rumando para seus assuntos, o ônibus que passa rente à calçada, o carro que desce velozmente a rua e o avião que deixa um rastro de fumaça branca no ar. Para esse alguém, o mundo é composto de restos de imagens, rostos desfigurados pela pressa, e o mundo se torna uma enorme interrogação.
O mundo poderia parar na próxima estação e esse alguém decidiria desembarcar. Como mágica, o tempo se tornaria mais longo, e o que foi ou seria se torna abreviado, para ganhar tempo e se tornar um outro tipo de ganho: o tempo jogando a favor. Muito se fala do frenesi dos tempos modernos, da pressa de atingir metas, de cumprir objetivos, no sentido de abreviar o tempo que seria gasto em nome da performance, do ganho em escala e de outras frases de efeito para motivar as pessoas. Nessa motivação, o tempo abreviado para que outros ganhem e não, propriamente, para alguém que segue rotinas preparadas para vencer na vida.
Se corremos tanto para abreviar o tempo, encurtar as distâncias, será que abreviamos nosso tempo de vida? Ou o tempo é o mesmo e tanto faz uma coisa ou outra?
Sintetizamos a linguagem para que a comunicação se torne mais fluida, sintetizamos o tempo das refeições para que tenhamos mais tempo para produzir mais e sintetizamos nossos sonhos para que eles caibam dentro da nossa ambição.
O retrato do mundo é abreviar para poupar tempo, e ter mais tempo para buscar outras formas de sintetizar a vida.
Quando abreviamos nosso tempo, perdemos os detalhes da viagem. Entrar rápido em um hotel rumo ao quarto para ganhar algum tempo a mais da viagem nos impede de admirar a arquitetura do edifício. Quando caminhamos rapidamente pelas ruas de uma nova cidade, rumo ao destino escolhido, nos esquecemos de admirar sua parte histórica, desprezada em nome de outro local onde interesses são maiores, ditados por guias experientes na arte de abreviar visitas e poder ganhar mais grupos.
Quanto perdemos pelo caminho quando tentamos abreviar nossa caminhada? Se olhamos sempre à frente, deixamos de olhar ao lado para ver outros detalhes, outras formas de ser, patrocinadas por moradores distraídos, sem nos preocupar com o tempo abreviado por outros.
De tanto abreviar o tempo e ganhar mais tempo, ao chegar no futuro, olhamos para trás e percebemos que tudo passou muito rápido. Nossa vida vivida é aquela onde as histórias para contar são tantas que não dá para abreviar o tempo para contá-las. Somente aqueles que passaram a vida observando detalhes, buscando lugares novos onde a caminhada tranquila, sem brevidade, se consumia, podem ser as testemunhas de que é possível não ser escravo do tempo.
O tempo passa muito rápido, e por isso abrevia nosso tempo aqui na terra. Por que, então, abreviar o tempo se não teremos mais tempo no futuro para ver os detalhes da vida? No final das contas, o tempo é medido pela quantidade de memória que guardamos.
O “até breve” pode se transformar em um tempo largo demais para suportar. Mas pode ser também um retorno mais rápido do que se pensa.
Origem da foto: Foto de Morgan Housel na Unsplash
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