Crônicas

Sobre nossos afetos

         Qual o afeto que se encerra dentro de nós? Não está tão somente nas palavras pátrias a quem devemos honras, que nos faz ou deveria nos fazer sentir um povo único e soberano, sempre prontos a defender uns aos outros: o próprio sentido do afeto que não vê diferenças, não enxerga castas ou estratos sociais.
       Às vezes é muito difícil, por não compreensão pela falta de reflexão, ou pelo simples egoísmo de usar a vantagem que se consegue no berço, entender o que é o afeto, essa relação entre pessoas onde procuramos compreender a falta que o outro tem, e entender que, mesmo tendo, existem muitos que não o têm.
      No mundo competitivo, a busca por espaços se resume na busca por espaços que possam estender mais longe os braços da ambição. Assim, cada vez mais, os ganhos sobre os outros são muros que põem os afetos mais distantes, onde os afetos perdem o sentido e são inexistentes.
      E se perdermos os afetos, o que nos restará para abraçar, além das nossas causas individuais, dos nossos projetos pessoais, que não permitem a presença de outros ou de outras em nossas relações?
         Os afetos detêm a barbárie, os afetos são o sentido da vida, ter afetos em épocas de cólera é ter o antídoto da violência.
      Quando as soluções “finais” são abordadas, como a única possível, é quando aqueles que nunca conheceram a afetividade tomam as rédeas do presente. Se somos todos iguais, a justiça sempre prevalece, porque não há um contendor que seja capaz de comprar a justiça. Se somos todos vivendo em equilíbrio de posses, a justiça não escolhe lado.
       A violência é a solução que traz o mal para a discussão, e se ela é respondida com violência, a violência e o mal se instalam, parodiando Sartre.
       Será possível resgatarmos os nossos afetos? Esse sentimento que nos é tão caro, que nos impede de transpor o limite da humanidade? Em alguns, ou então, em todos os momentos, nos parece que não seja possível, mas ele está ali, ele nunca vai desaparecer.
      Precisamos falar sobre isso, afinal, quando achamos que o mal está no outro, ou quando ignoramos o bem que o outro fez, apenas porque não gostamos dele. Somos conduzidos na vida, levados por sentimentos, desde a sensação de que devemos pedir desculpas a alguém, ou simplesmente porque somos egoístas, é que os afetos se acham encerrados dentro de nós, guardados como se tivéssemos vergonha.
       Para nos defender dos nossos afetos, lançamos a primeira pedra, quando os afetos precisam que lancemos o primeiro abraço.
       Essa é a escolha.

Origem da foto: Foto de Dương Hữu na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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