
Sonhos em liquidação
A esperança é uma palavra bastante utilizada, principalmente por aqueles que sofrem desilusões na vida, causadas pelo entendimento da finitude e da reflexão sobre os acontecimentos que testemunham. Na verdade, a esperança é algo que dói porque, enquanto temos esperança, vamos sofrendo as horas e os minutos à espera de um milagre ou de um fato novo que modifique aquilo que nos angustia. Sendo a esperança aquela que morre por último, sempre teremos por ela o apego e a necessidade da crença de que um fato que modifique a realidade ocorra. Ter esperança, então, se converte em um fardo para os otimistas e, também, para os pessimistas, porque nesse momento ela já morreu.
Tratamos a esperança como uma balsa que nos leva pelo mar revolto e se torna o último baluarte antes de entrarmos no terreno da realidade.
Quando nos agarramos a ela, é porque tudo já foi tentado e nada surtiu efeito. Portanto, nos colocamos ao lado da estrada, esperando que chegue aquele algo a mais que só existe em nossa imaginação.
Se a esperança não se realiza, então ela não foi utilizada e, portanto, podemos dizer que é uma peça sem uso, novinha em folha, pronta para ser repassada a outros. No mundo digital, todos colocam seus momentos felizes e invocam a esperança para que se eternizem, como as fotos publicadas. No entanto, não é bem assim. Suponhamos que as publicações tomem outro rumo e resolvamos publicar aquilo que nos aflige. O efeito seria dizer que não há mais esperanças e que tudo foi por água abaixo. Nada demais dizer que essa esperança poderia ser colocada à venda, em uma liquidação espontânea, na esperança de que alguém a compre e, quem sabe, torne-se realidade.
Ao abandonarmos a esperança e cansarmos de esperar por ela, os fatos nos trazem de volta à realidade, onde eles se encadeiam e as consequências se tornem inevitáveis.
Buscar a esperança é tentar realizar sonhos e, sem ela, os sonhos se tornam pesadelos ou coisas irrealizáveis. Quem abandona a esperança e se cansa de esperar por ela vive a vida real, ou então, deixa a esperança, novinha em folha, objeto sem uso, esperando por algum comprador desavisado. O medo da decepção leva alguns a abandonar os desafios e se entregar ao acaso, tratando a esperança como um objeto descartável, mero acessório inútil.
Na verdade, a esperança não é nossa. Muitas vezes, herdamos essa esperança de pessoas que viveram antes e que acreditaram em um futuro melhor. Carregamos a esperança como um fardo que outras gerações nos outorgaram. Mesmo quando a vida não faz sentido para nós, porque lutamos dentro dos nossos limites para prolongar os sonhos de futuro, entregamos a esperança sem uso para outros, esperando que eles continuem a carregar esse destino adiante.
Não ter esperança ou se desfazer dela é ver o mundo sem cor, correndo uma fita em branco e preto, como um trem que não se preocupa mais em parar nas estações. Mas também, como um trem, em cada estação algo se renova, porque a esperança não é uma mercadoria em si mesma, ela é algo que recicla a cada rodada de gerações que surgem.
Origem da foto: Foto de Marc-Olivier Jodoin na Unsplash
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