Sofrer de amor
Que coisa tão ilógica! Quanto se sofre por este sentimento e quantas vezes a história se repete? Mas, afinal, o que é sofrer? Sofrer, antes de tudo, é viver. Sofrer é ser sôfrego como a respiração, como a busca do ar para viver e sofreguidão é ir com sede ao pote, é beber sem saciar a sede, é comer e não se satisfazer nunca. É sofrer e conter a emoção, o desejo, a vontade, é parar a caminhada e olhar para o lado, olhar para trás, buscar o inatingível com o coração aos pulos de medo e emoção. É suportar, padecer, é ser sofrível sem merecer, porque sofrível é ser razoável e ninguém pode ser razoável no viver.
Porque viver é intenso e, ao mesmo tempo, comedido, é ter experiência sem nunca ter passado pelos acontecimentos ou pelo tempo, é querer o futuro e temer o que vem pela frente, é abrir a porta devagar com medo do vento, da chuva, mesmo sabendo que viver é se agasalhar, se molhar, mesmo de peito aberto pronto para se aventurar.
E não há melhor aventura do que amar, do que sentir, do que almejar, do que desejar. Amar é abandonar a ilha deserta e enfrentar o mar bravio em uma jangada improvisada, ao sabor das marés e dos ventos, é amargar o caminho do surpreendente como um tempero indispensável para se ter. Está na cor desprezada: o amarelo, no amarfanhar os sentimentos, reduzi-los a pó, sem se desfazer no ar, é amargurar, sentindo o gosto sem sentido. É não ter nada e se sentir arrependido. É não ter porquês a perguntar e nem porquês para responder.
Amar, sofrer é a insatisfação mútua, não se enquadram e se definem em pares de olhos brilhantes e bocas nuas, se entregando sem palavras. Sinônimos na chibata, nua e crua. Uma dor sem marcas. Quem sofre por amor não tem palavras, é coisa que se enfrenta no calado, no silêncio da madrugada, quando ninguém está por perto, nem vivalma, pleno deserto. Quem sofre espera calado, quem ama corre abençoado.
Quem sofre por amor está marcado pelo resto da vida. Na marca da vivência, do ir e vir apaixonado. Na marca da ausência, no encontro aguardado, na preparação da festa, da comemoração e do abraço. Na marca da despedida, não deixando no rosto a ruga do fracasso, não demonstrar a fraqueza tão plena do fraco.
Sofrer, amar é viver no limbo, no intervalo em que a vida para e ninguém nos ouve. São momentos únicos, deixados na memória, como formas de defesa ou na rememoração ilusória do que poderia ter sido e não foi, transformados em fumaça, em devaneio, em histórias para contar.
Sofrer e amar, duas coisas tão próximas, tão diferentes e tão fáceis de rimar.
Origem da foto: Foto de K. Mitch Hodge na Unsplash
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