Crônicas

Jornada sem estrelas

         Os efeitos da jornada em nossas vidas estão registrados nas marcas que o tempo deixa em nosso corpo. Privilegiados têm problemas que nem parecem pertencer a este mundo, mas, para outros, a jornada pela vida é um caminho tortuoso e perigoso, triste e cheio de arrependimentos. E existem aqueles cuja jornada segue tranquila, sem contratempos.
       Todo viajante depende da sorte para que sua jornada tenha um bom desfecho. O destino, no entanto, a providência ou qualquer outro nome que se dê, vai desfazendo os sonhos e desfiando desafios muitas vezes intransponíveis, outras vezes meros contratempos.
       Nem todos os viajantes são iguais, e as sendas que eles têm que percorrer não são as mesmas. Quando começamos nossas vidas, nem temos a exata compreensão do que nos espera. Alguns, simplesmente, empreendem a viagem, vivendo cada dia a sua maneira. Outros pensam no futuro, e têm consciência de que o corpo vai se entregando e sabem que ele não será o mesmo quando realmente começará a aventura.
        Jornadas podem ser caminhos duros ou podem ser processos transformadores em nossas personalidades. As surpresas no caminho é que formam as marcas do corpo e da alma, porque, no momento do perigo, da desilusão ou do ímpeto é que vamos decidir e fazer nossas escolhas.
         Nem todo campo estrelado está disponível. Alguns seguem olhando para os céus buscando o norte, a direção a seguir, e não conseguem ver estrelas. Outros as perseguem e, mesmo sem vê-las, por um instinto ou outra mágica qualquer sabem que elas estão ali, bem perto; sentem na alma o brilho delas e seu frio calor.
        Para aqueles que vivem no mundo urbano, as jornadas são sempre as mesmas. Seus dias atarefados, na luta pela subsistência, não lhes permitem tempo para olhar o céu, buscando a linha estrelada. São anônimos que percorrem as ruas, se cruzam e não se encontram, se olham e não se veem, estão próximos e, ao mesmo tempo, tão afastados. Mas essa capacidade de seguir em frente e resistir ao tempo dá um sentido de beleza e entrelaçamento que vai bordando os caminhos na busca dos objetivos de cada um.
      Romper com um círculo vicioso de pobreza ou infelicidade é o sentido de transformar a vida, de ser um outro ou outra, buscando a reversão de um destino já selado no dia do nascimento. São jornadas crispadas de dor e somente aqueles que são fortes para enxergar um final de jornada estabelecem que a estrela que brilha lá longe lhes pertence, e ninguém irá tomá-la deles.
         São exemplos de viajantes que não sentem o medo das noites sem estrelas, repletas de tempestades e perigos, tormentas e preocupações. Estrelas nos ensinam os caminhos e muitos acreditam que seu destino esteja escrito nelas.
       As jornadas perfeitas são aquelas que o viajante descansa e olha para trás sem arrependimentos. Viveu no meio das estrelas e se deixou encantar por elas, as perseguiu e as conquistou. Arrependimentos não fazem parte da sua vida. Viveu a vida vivida e o único desejo seria revivê-la. Por outro lado, uma jornada nunca termina para aqueles que se arrependem das decisões diante das encruzilhadas. Seguiram por instinto e ignoraram os sinais que as estrelas enviaram. Oportunidades que foram perdidas e teriam, durante a caminhada, a capacidade de mudar o curso da história.
        Quando se olha para trás e a única vontade é nunca reabrir o livro das memórias, é sinal de que o ciclo não se fechou. O livro da história pessoal pode ser ignorar os momentos estrelados e achá-los menos importantes do que as noites sem estrelas.

Origem da foto: Foto de Jeremy Bishop na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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