Sabedoria da ferrugem
A figura dos avós sempre nos traz um passado refletido nas rugas, nos trejeitos, nos assuntos sempre repetidos. Se o mundo avança e as pessoas vão recebendo mais informações, por que alguns ficam remoendo velhas lembranças? Penso que existe uma resistência em aceitar novas coisas, novas maneiras de comportamento ou novos relacionamentos.
Mesmo sem saber, somos críticos do nosso tempo e, algumas vezes, relutamos em aceitar certos “modernismos” que afetam a nossa maneira de ver o mundo e nos colocam na defensiva. Chamar de velho aquele que rejeita as novas performances do mundo é um pouco exagerado, tendo em vista que nem tudo que é novidade é bom para todo mundo. Isso é assim, foi no passado e continuará no futuro. Somos indivíduos diferentes em tudo, inclusive na maneira de aceitar novos comportamentos.
No entanto, os avós têm um papel importante nesse pedido de parada do mundo. Há um momento em nossas vidas em que desejamos não ver nada mais de novo. O mundo se torna enfadonho, de uma certa maneira. É o momento em que o contador de histórias entra em cena e um passado um tanto quanto romântico entra em cena.
Avós não são somente um poço de conhecimento, testemunhas de eventos que entram para os livros de história e são memorizados para as provas. É claro que cada avô ou avó têm uma versão sobre o passado, assim como nós a teremos quando chegarmos ao futuro. Mas essas histórias vêm embaladas por um cheiro peculiar, uma risada irônica, não escondendo uma certa crítica sobre os jovens do momento. Avós são mais do que livros abertos, eles são colos carinhosos, daquelas crianças que, outrora, pulavam pelas ruas e conhecem todos os truques e brincadeiras de antes dos eventos tecnológicos.
Avós têm habilidades para construir, consertar e inventar como uma criança que volta no tempo e se enternece ao repassar o seu livro de memórias para os grandes olhos abertos de curiosidades.
A casa dos avós é um teatro de mágicas e descobertas, um palco que recebe o seu distinto público, ávido pelas novidades e a cozinha aberta com novos sabores e cores. Nesse mundo nada é proibido e tudo é um esconderijo do mundo que tenta impor limites.
Avós de verdade tendem a exagerar as verdades. Eles enchem de colorido um passado que só existe enquanto suas vozes dominam o ambiente. Adorados pelas crianças que tentam ensinar a eles as novas maravilhas do século, ouvem com uma curiosidade fingida, ainda que as suas histórias sejam “consertadas” pelos filhos. No entanto, a credibilidade dos avós é muito maior do que a suposta “sabedoria” dos pais.
Na casa deles sempre existe um canto secreto: uma parede com livros que eles abrem com paciência para contar histórias, uma caixa de ferramentas mágicas capazes de consertar qualquer coisa, a velha coleção de coisas aleatórias ou um jardim repleto de flores que não florescem como em qualquer lugar.
Essa fragilidade um dia desaparece e somente as lembranças das figuras e das vozes continuam. Novos avôs vão assumir esse papel e assim o livro de memórias continua a ser escrito e a sabedoria não se desfaz.
Origem da foto: Foto de Gadiel Lazcano na Unsplash
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