Revendo quintais
Quintais quase sempre evocam, em nossa mente, a ideia da infância. Isso ocorre porque os quintais são como memórias que permanecem e fazem a viagem temporal acontecer. Contudo, a gente percebe quando passa diante de uma casa, em uma rua simples, e um jardim florido e bem cuidado chama a nossa atenção. Por outro lado, aqueles jardins mal-cuidados nos soam como abandono e descaso.
Os nossos quintais são territórios inexplorados quando somos crianças e inventamos mil coisas para dominá-los. Nesse sentido, existem os cantos preferidos, os locais onde plantamos alguma árvore e ela cresce, acompanhando o nosso tamanho. Consequentemente, ao sair da casa, seja por qual motivo, a ideia de voltar e sentar naquele lugar vivido está sempre em nossa mente.
Um mundo inteiro cabia no quintal da nossa casa (é claro para aqueles que tiveram a oportunidade de vivê-lo), podendo ser uma invasão de piratas, a construção em madeira de uma nave espacial e até mesmo dirigir um carro imaginário. Desde os quintais podíamos viajar por todo o universo, seguros de que a hora do jantar assinalaria a hora de parar os veículos, estacioná-los no imaginário e seguir a ordem de comando vinda de dentro da casa.
O romance também emanava dos quintais enquanto passávamos diante de alguma casa e uma sombra nos chamava a atenção, de alguém que nos cativou e olhos se encontraram.
Ver quintais é voltar à infância, com o silêncio da rua sem invadir a privacidade dos comandantes dos veículos imaginários. Além disso, alguns, por serem mais extensos, guardavam segredos encobertos por algum arbusto. Lá, no fundo dos quintais, nos escondíamos do mundo e da ira dos pais diante de alguma travessura ou uma nota ruim na escola.
Alguns ainda têm o privilégio de ter quintais, longe das cidades grandes, que transformaram lugares de sonhos em playgrounds planejados e imaginados como quintais futurísticos.
Enquanto os antigos quintais nos protegiam do mundo, refúgios de risos e ocasiões de festas debaixo de estrelas, nesse novo cenário, os quintais são protegidos por grades e cercas, vendo olhos desolados e frustrados de quem nada tem a olhar e ver, com inveja, o quintal do outro, onde as cores têm ares de diferenças.
Quando falamos de quintais, falamos de memórias de coisas que não voltam mais, até daqueles que invejavam o quintal do vizinho que era maior e onde uma família grande organizava brincadeiras e festas de aniversário.
Os quintais dos nossos avós tinham mais sabor quando nos recebiam com seus braços abertos e riam felizes quando passávamos por eles, trazendo de volta a alegria que os filhos deixaram quando partiram.
Nossos quintais eram mundos que cabiam em espaços que nunca deixávamos de ocupar.
Origem da foto: Foto de Nick Night na Unsplash
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