Crônicas

Linhas tênues

        Vivemos nossas vidas em um fio de navalha. A fragilidade das relações é latente e parece que o mundo vive as suas emoções à flor da pele. Mas a tenuidade tem muitos aspectos e, dentre eles, os mais estranhos são aqueles que beiram à sutileza, exatamente, muito conectados a essa ideia do tênue.
        No amor, por exemplo, a tenuidade beira  um limite do possível; seres muito amigos e muito próximos, e essa relação beira um quase amor, um quase desejo, que segue contido pelo respeito e por um distanciamento cauteloso. Eles se encontram quando têm algo a compartilhar, em um nível de confiança que quase ultrapassa a fronteira da simples amizade. Verdadeiros amigos têm essa relação de carinho não excessivo, mas excessivamente próxima, para manter a amizade em um nível elevado.
        A relação entre chefe e subordinado, onde a admiração beira quase um pedido de maior proximidade, uma fronteira que não deve ser ultrapassada, e as partes se contêm para que a relação profissional não se rompa.
          O melhor termo para definir isso seria o flerte ou o olhar platônico.
       Eles são afetos em conflito que não chegam ao amor. Alguns dizem que quando você se torna apaixonado ou apaixonada pela melhor amiga ou pelo melhor amigo, a amizade se perde. Pode ser. Então, é melhor preservar essa tenuidade.
      As lembranças e as memórias têm essa peculiaridade do tênue. Ele está nos olhares perdidos e na escapada do mundo real rumo às recordações que nos são caras, como cheiros, cores ou os sons de um sorriso. Imagens que estão perdidas no passado da juventude, na recontagem da história, tentando dar outro final mais feliz.
        A esperança tem essa característica da tenuidade porque é a última fronteira entre a expectativa e a realidade. É tênue a linha que separa o desejo e o fazer: a espera do telefonema e da carta que não chegam; o celular que não aponta a leitura da mensagem; a decisão judicial que pode livrar alguém da escuridão e devolver-lhe a liberdade, ou o resultado de um concurso difícil por tanto tempo aguardado. Enfim, a esperança tem uma linha que define o futuro de todos. É como a linha que define a vida e a morte, contida nas palavras do médico ou na chegada do socorro. Nada é mais frágil do que estar à mercê de algo sobre o qual não temos nenhum controle.
       O agricultor olha para o céu e não compreende por que o período das chuvas não começou, vendo a sua lavoura entregue à tenuidade do tempo e dos seus caprichos. Apesar de encarar uma rotina diária, o trabalhador ao acordar prevê um dia fatigoso, mas dentro daquilo que espera, com seus horários e compromissos profissionais, e sabe que por um átimo tudo pode se dissolver. Todo o otimismo ou o quotidiano pode desmanchar um projeto de vida. Um solitário pode interromper seu silêncio quando alguém inesperado vem ao seu encontro e pode mudar sua vida. É tênue o espaço entre a solidão e o regozijo e vice-versa.
       Nada é mais tênue do que a sensação enganosa de quando achamos que estamos no controle. A vida muda sem se importar com nossas vontades. A vida é tênue e são segundos que separam a dor da alegria e a tristeza do sorriso.

Origem da foto: Foto de Patti Black na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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