Crônicas

Reconectar-se com o silêncio

        Vivemos tempos onde a quantidade de informações nos bombardeia de todos os lados e elas se confundem entre a realidade e a mentira, a ponto de não sabermos em que tipo de mundo nós vivemos. Ao mesmo tempo, devemos lutar por nossa sobrevivência, seja ela material ou espiritual. Há um momento em que devemos fazer uma escolha e, nessa escolha, devemos considerar o valor do silêncio.
        Reencontrar o silêncio é buscar a natureza, o local onde começamos. E onde está a natureza no meio do caos urbano e na vida frenética das cidades? Onde encontrar refúgios de calmaria, oásis de tranquilidade, quando nos faltam acessos aos lazeres culturais, o convívio em parques ou até mesmo o silêncio das bibliotecas?
       Assim como as orações que fazemos no silêncio, a busca pela neutralidade diante do bombardeio de vozes torna nossa vida um verdadeiro inferno. Há uma necessidade de ficar antenado às novidades. E novidades seriam o quê? O novo? Onde estaria o novo diante das reconstruções históricas e das tentativas de distorcer verdades?
       Ler, escrever, repensar e considerar nossos pensamentos são pontos importantes em nossas vidas. O pior silêncio é quando tentamos entender a realidade, e essa realidade não bate com a coerência e os fatos. Algumas vezes, ser um crédulo nos traz mais tranquilidade do que ser o contestador, alguém que pensa e tenta se reconectar à realidade através do silêncio.
       Ter coerência nos pensamentos e nos silêncios e tentar encontrar a realidade tem um preço: a solidão. Evitamos conversar, interagir, muitas vezes motivados pela possibilidade de o “outro” lado não concordar e as consequências não serem muito boas.
       É claro que, para o silencioso, as atitudes humanas são fascinantes, ao mesmo tempo em que são nebulosas e assustadoras. A mentira hoje faz parte dos caráteres. Mentir se tornou algo tão normal que a mentira se equipara à verdade. O que um jogador de futebol faz ao se contorcer com dores dignas de uma performance teatral, hoje faz parte do cotidiano da política e dos relacionamentos humanos. O teatro se completa com a vontade de mostrar um conhecimento que não se tem; caminho perfeito para chegar à mentira pura e deslavada.
      A fuga é necessária. E não se trata de fazer uma longa viagem ou entrar em algum lugar isolado do mundo como um ermitão. A fuga pode ser sentar em um parque e observar crianças brincando, mesmo que o macaquinho do pensamento, pulando de galho em galho, nos faça imaginar o que elas serão quando adultos.
        Uma fuga pode ser uma manhã de domingo, caminhar sem rumo sentindo o vento e os sons humanos e os da natureza serem apenas burburinhos. Ou pode ser trocar a atenção à tela do celular por uma planta que teima em nascer no meio do cimento da calçada e pensar como ela resiste a tudo. Mas, ainda assim, ela consegue ser uma planta capaz de gerar flores ou atrair insetos.
           “Fugir” pode ser o melhor remédio. Algumas vezes amargo e algumas vezes doce, dependendo da nossa capacidade de conviver e se reconectar através do silêncio.

Origem da foto: Foto de Andraz Lazic na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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