Crônicas

Prisão invisível

        Na minha opinião, as grandes invenções da humanidade foram o domínio do fogo, o uso da palavra, a moeda e a internet, e o elo de ligação entre elas é que proporciona a reunião de pessoas. O fogo, além de alavancar ferramentas, serviu também no passado e até hoje para isso. A palavra estabeleceu um novo código de transmissão de informação e uniu as pessoas em torno de um padrão linguístico. A moeda tem o seu papel como facilitadora dos negócios e, também, por ser o foco de muita gente. A internet foi o estopim que reuniu pessoas em torno do mundo, que talvez, sem ela, nunca teriam se conhecido, e facilitou a linguagem entre culturas diferentes e alavancou negócios pelo mundo.
         Dados todos esses conceitos, poderíamos dizer que a internet libertou a humanidade, mas, ao mesmo tempo, libertou os fantasmas que estavam escondidos em seus guetos espalhados pelo mundo. Ou seja, a internet, de roldão, revolucionou o mundo em que vivemos; para o bem e para o mal.
        No caso, ela também criou as prisões sem grades. Tendo o mundo nas mãos, as pessoas se postam diante de uma tela iluminada e “veem” o mundo e também o conhecem através das viagens que outros fazem. As pessoas conhecem o mundo, mas não tocam nele, não sentem a emoção de estar nele, sendo apenas uma visão superficial, na segurança de uma cadeira em sua casa.
      A informação sempre foi uma necessidade entre as pessoas. À volta do fogo,as novidades da comunidade, as aventuras do dia talvez fossem compartilhadas, através de figuras ou gestos. A palavra facilitou a descrição dos fatos e as formas de narrar deram e dão, até hoje, as ênfases das aventuras. A moeda comprou as informações ou as vendeu, por trás de interesses ou não. A internet trouxe a informação em tempo real e conectou as pessoas com o mundo. Todo mundo é especialista em alguma coisa e o fato se consumou na extrapolação da informação: as fake news.
        O fogo trouxe o poder de transformar, mas também o risco do acidente. A palavra, o poder de transmitir, de manipular, e muitos caíram pela palavra. A moeda facilitou a vida de muita gente, mas, ao mesmo tempo, criou a ambição desmedida. A internet proporcionou a pós-verdade, algo mais do que a simples verdade, porque seria recontar a história, a partir dos interesses pessoais ou comunitários.
       Portanto, as coisas que poderiam nos trazer a liberdade nos trouxeram a instabilidade e a insegurança. Estamos presos, e agora mais do que nunca, à informação. Saber julgá-la é o grande desafio que temos pela frente.
       A informática, a informação que nos chega de forma automática, poderia ser o momento em que todos estariam livres. O problema é que quando temos a liberdade real, não sabemos o que fazer com ela. Os alicerces morais e a ética entre povos se desfazem e estabelecemos um desencontro de informações a serviço de poucos e destruição de muitos.
      Apesar da riqueza de informações, nós temos que lidar com o perigo de tê-las de forma tão automática. O bombardeio é maior do que a capacidade que temos de discernir entre o falso e o verdadeiro, e questionamos a vida todo o tempo.
       Ao final de tudo, pelo menos até agora, a inteligência artificial entra no circuito e se transforma no grande vilão, travestido de salvador da humanidade, para levar de volta a humanidade ao seu tempo de trevas.

Origem da foto: Foto de Ye Jinghan na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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