Crônicas

Medo da razão

        Estar diante de uma verdade e não querer segui-la, simplesmente porque ela não satisfaz às nossas razões, se tornou, com o advento das redes sociais, algo recorrente. A coragem de enfrentar a realidade nos causa desconforto. Alguns de nós convivem nos dois mundos, onde em um a verdade é crua e cristalina e no outro estamos no conforto em acreditar, ter fé de que alguma coisa vai acontecer, e teremos, no final das contas, a razão.
      No entanto, a realidade é bem mais cruel. Viver em uma ilusão é extremamente confortável. É como se o trem em que vamos nunca chegasse à estação indesejada. Assim, viver na ilusão é viver, eternamente, em uma jornada interminável.
       Para isso, os pares se procuram, principalmente aqueles que precisam se manter em uma bolha onde o ar que se respira seja o mesmo, ainda que ele seja poluído por mentiras, mas mentiras bondosas e carinhosas que afagam os egos e mantêm a unidade do inútil.
       A falta da coragem em admitir que uma tragédia se abateu sobre nós é que nos leva a procurar caminhos que contenham uma explicação mais além da realidade. A coragem está na visão dos fatos como eles são e não como eles deveriam ser, para nos dar alegrias ou, pelo menos, não trazer as tristezas.
     Quando seguimos os “ensinamentos” daqueles que se dizem donos da verdade e se anunciam como vencedores, na realidade, estamos buscando e comprando as fantasias de aproveitadores e criadores de conteúdos vazios e sem consistência; afinal, é mais fácil acreditar que a fortuna do outro veio daquilo que ele, realmente, produziu, do que questionar a fonte, a origem e verificar as consistências dos projetos.
      Há coisas na vida que, realmente, dão certo, embora pareçam projetos viáveis, afinal, alguém chegou lá. Mas a razão é, traiçoeiramente, mordaz. A razão aponta os erros e se atém aos fatos e não às coisas que se dizem. O fato de alguém ter vencido em determinado projeto não significa, necessariamente, que a fórmula, novamente aplicada, venha a ter sucesso também.
     Há coisas que não se explicam, são fenômenos, e a razão se justifica porque são fenômenos, coisas que acontecem sem nenhuma explicação – realmente há coisas que não se explicam, mas são reais.
        Não vejo, entre os seguidores de projetos alheios, a simplicidade de dizer que são ignorantes. Na verdade, trata-se de pessoas arrogantes, e arrogantes no sentido de que a razão lhes pertence, porque creem, de fato, que terão sucesso. Mas a razão cobra seu preço quando circunda a todos como um fantasma. Querer que algo aconteça está muito longe da realidade de acontecer. O medo nos leva a isso, a essa crença de que tudo vai dar certo, simplesmente porque queremos. Seguimos ideologias, seguimos políticos, seguimos celebridades do exclusivo nonsense. E fazemos por medo, porque se formos colocar as coisas nos seus devidos lugares, essas pretensões são castelos de cartas que se desfazem diante de uma pequena brisa.
       Temos medo da razão e isso é compreensível. Imaginar algo é uma mistura de medo e esperança. Mas a razão é imortal e infalível. E é muito duro acreditar que a realidade não seja companheira ideal para sonhadores.

Origem da foto: Foto de Mark Fletcher-Brown na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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