Crônicas

Memória desmembrada

         Desmembrar lembra um esquartejamento, uma separação brutal de coisas e elementos, quer seja para um fim pacífico ou não. Essa ideia de separação nos leva a pensar em desistências também. Até porque, quando desistimos de algo, compulsoriamente, ou porque não temos condições de executar ou obtê-lo, essa desistência tem ares de derrota, de sufocamento e de angústia pela coisa perdida.
           Não ter mais o amor da pessoa amada nos separa de uma atmosfera idílica para um isolamento malquisto. É separar a realidade da ficção e tornar a vida menos vibrante e colorida.
          A chegada do progresso a uma cidade ou a um bairro desmonta a história do lugar. E quando voltamos a eles, depois de algum tempo, essa transformação é uma memória que se descola do passado. Quando olhamos o novo, nossa memória consegue ainda ver o velho que existia, ou o antigo, melhor dizendo. Nossa memória desmembra o novo, ainda permanecendo o antigo em nossa memória. É como se olhássemos para uma imagem e conseguíssemos ver duas imagens desmembradas.
          Esse “progresso” desfaz as amizades entre a vizinhança. Os novos moradores não têm vínculo com o lugar, e contrasta com os pouco resistentes que conservam o antes para discutir o depois. Muitas vezes, mesmo na política e nos interesses econômicos, essa desvinculação, esse desmembramento são artimanhas para esconder os interessados no negócio.
         Esse desmembramento da memória tem conexões com tudo aquilo que vivemos. E ninguém consegue viver sem a memória. Não há corpo que consiga desmembrar e jogar no esquecimento aquilo que vivemos.
       A família que reunia, em torno dos avós, toda a descendência, com o passar do tempo, vai se desmembrando. Filhos, netos vão procurar outras moradas, outras oportunidades em locais distantes. As desavenças entre parentes desmembram a ideia da fraternidade. Quando os avós se vão, o motivo para se reunir e confraternizar se desfaz e o desmembramento acontece. São visitas esporádicas de alguns que tentam resistir ao tempo na tentativa de evitar as separações. Mas o tempo e a vida são cruéis e as divisões acontecem e somente a memória vai perpetuar toda a história.
         O resultado desse desmembramento é a solidão, o passado resistindo nas memórias, nas histórias contadas e recontadas pelos amigos e parentes vivendo distantes.
       O mundo se tornou pequeno com os transportes que ajudam a desmembrar as memórias familiares, as amizades e a fraternidade humana, de um modo geral. Como é forte desmembrar os membros, desconectar nossos corpos de outros corpos, dos beijos e abraços dados em profusão. A memória, esse ser mítico que vaga em nossos corações e mentes, é o único ser que pode evitar esse desmembramento, até quando aquele que guarda a história em sua mente se vá. Nesse momento, mais um desmembramento acontece e encontramos o esquecimento.

Origem da foto: Foto de Jon Tyson na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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