Lidar com emoções
O nosso cotidiano poderia ser o mar calmo e brilhante, iluminado ora pelo sol ora pela lua, despejando mares dourados e prateados. No entanto, assim como o mar, nosso cotidiano nos afronta e nos desafia a nadar ora em águas revoltas ora em águas calmas. Assim como o mar, nosso cotidiano encontra, nas profundezas, a guerra de sobrevivência entre predadores e perseguidos. O sal do mar é danoso para nós e, ao mesmo tempo, aquele que tempera nossa comida. O sal do cotidiano nos afeta e, no entanto, não traz o alento do odor e do sabor.
Assim são, também, as emoções que balançam ao sabor de acontecimentos, fruto de interpretações errôneas, tanto para o mal quanto para o bem.
Os abraços e os beijos, palavras efusivas nos encontros nas ruas, nas festas de amigos ou familiares, escondem tantos segredos que não sabemos separar as reais emoções dos afetos envolvidos na etiqueta. Sorrisos escondem ironias, toques no corpo podem parecer naturais ou provocativos, as segundas intenções, as ironias, os subentendidos são metáforas que significam as lutas intestinas que acontecem por baixo do mar calmo ensolarado ou prateado do nosso cotidiano.
As relações de afeto, das quais esperamos tanto, não espelham a realidade. O contraste entre a imaginação e a realidade nos choca, mas, ao mesmo tempo, nos entorpece. Tendemos a imaginar e desejar que o amor ao próximo seja efetivo, assim como não o praticamos e esperamos que outros o façam (claro que temos as exceções, e são exceções exatamente porque muitos de nós não praticamos, somente esperamos).
Não sentimos a violência dos afetos no sentido físico, amortecidos por essa esperança na existência deles, e o nosso sofrimento mental é que percebe o calor dessa invisibilidade. Uma violência surda que sentimos quando guardamos os nossos silêncios nas nossas relações sociais, longe dos sorrisos nas faces, é imaginar as pessoas como são, encobertas pelo cobertor do politicamente correto; e se a prática levaria à perfeição a sociedade.
Como é possível navegar nesse mar calmo e tranquilo do comportamento social e das etiquetas obrigatórias? Não navegamos. Colidimos em nossos encontros, tentando demonstrar uma empatia inexistente. Nossos afetos são, frequentemente, a superficialidade do relacionamento social. Se nos condoemos com a dor, não sentimos dor por aquele que está em situação de risco ou de rua. Como separar esses afetos, como dar à mesma palavra sentidos diferentes? Somos como barcos tentando agir diante das pressões que recebemos das ondas, dos encontros por todos os lados. Hoje, mais do que nunca, os afetos estão separados por mundos reais e mundos virtuais. Somos solícitos nos encontros virtuais e, muitas vezes, nos cruzamos nas ruas e nos afastamos para evitar os mesmos encontros e as conversas obrigatórias. Somos amizades de prateleiras, cada um no seu lugar e sem se tocar ou ouvir a voz e a convivência vai da sinceridade à mentira, em um simples clicar no teclado, sensibilizando não a alma do outro, mas um sinal de positivo na tela.
Entre o desejo de expressar o desconforto e o fingimento em expressar a alegria provoca nesse mar calmo uma revolução em suas profundezas. A questão não é o mar estar revolto ou de ressaca alguns poucos dias das nossas vidas. O problema é o tsunami que pode vir sem aviso.
Origem da foto: Foto de Joanne Glaudemans na Unsplash
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