Crônicas

Elegância em ser indiferente

       Nos tratamentos sociais, existe uma etiqueta formal quando as pessoas interagem. Existe a etiqueta na apresentação, quando somos convidados para a casa de alguém, ao nos aproximarmos para pedir uma informação ou um pedido. As atitudes formais encobrem o que somos. Por entre sorrisos e palavras mansas pode se esconder alguém hábil com esses refinamentos.
        Em momentos difíceis, conservar a elegância é um ato corajoso, porque a melhor resposta para aqueles que nos desafiam é manter-se indiferente sem, no entanto, ignorar a sua presença. Ninguém está impedido de reagir diante de maus-tratos e, às vezes, somos impelidos a reagir.
         Um olhar superior determina a personalidade das pessoas. Pode ser visto como arrogância ou algum temor escondido, disfarçados nesse pedido de afastamento. O olhar, no entanto, traz um significado de indiferença quando não está fixo em alguém, mas tentando ver mais além, como se o outro não existisse ou fosse excluído do “nosso” mundo.
         Na era da hiperconexão, onde a internet faz as pessoas interagirem com mais rapidez, inclusive entre pessoas que nunca se conheceram pessoalmente e, talvez, nunca ocorra esse evento, a indiferença está em olhar o que os outros fazem sem interferir. O grande paradoxo é que um instrumento perfeito para conectar pessoas e proporcionar a troca de experiências se converte em armas para alguns. Nesse mundo, a indiferença causa estragos. Muitos que alçam o nível de celebridades e amealham numerosos seguidores vivem em uma corda bamba, onde, para manter o seu reinado, necessitam de cada vez mais produzir conteúdos. Em um mundo formal de trabalho, em que profissionais ou não buscam as suas ocupações, aqueles que vivem em um mundo de fantasia, monetizados por seguidores, talvez vivam o desespero de, um dia, perder tudo. Afinal, suas fortunas e sucessos dependem de uma máquina que poderá ser desativada, ou não funcionar pela simples falta de eletricidade.
          Vamos imaginar um mundo que, de repente, desaparece com essa interação social e como seria a vida de quem nunca trabalhou ver o seu distinto público, simplesmente, evaporar?
         Ser elegante e ignorar tudo aquilo que nos sufoca e nos escraviza, diante de uma tela iluminada, é ser indiferente a um mundo desconexo e sem sentido. Muitos estudos serão feitos para entender como funciona esse novo mundo. Apesar do lado positivo do encontro entre desconhecidos, as publicações, na verdade, são indiferentes ao publicador, porque, muitas vezes, aquilo que é publicado nem sempre retrata a opinião do responsável; elas apenas cumprem o papel de atender a um público louco por um tipo de conteúdo.
      Ser elegante em ser indiferente é, antes de tudo, um tributo a nós mesmos, um respeito necessário para nosso íntimo. Passear com indiferença entre coisas sem sentido e publicações que visam apenas a monetização é um ato de sobrevivência diante do caos que não sentimos, mas é fácil perceber.

Origem da foto: Foto de Shyam na Unsplash
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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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