Crônicas

Custo do conhecimento

        Chegar ao mundo é um exercício de adivinhações. Imaginemos sair de um nada, de um lugar desconhecido, que algumas religiões e a ciência tentam explicar, usando, cada uma delas, os seus artifícios, mitos ou dogmas e desembarcar em outro, como se atravessássemos um portal? Chegamos trazendo uma inocência e uma pureza, um painel em branco para ser colorido, desenhado e moldado ao sabor do artista. Nesse caso, o artista seria a própria existência, o lidar com o mundo. Os momentos das descobertas são as pinceladas que vamos dando à tela em branco das nossas mentes. Ora nos lambuzamos com alegria no meio das cores, ora nos debatemos com as consequências das pinceladas que vamos dando ao largo da vida.
        A essência da inocência pressupõe o nada a ser preenchido, o algo puro que trazemos e vai ser poluído pelos dilemas dos seres humanos.
      Não há nada mais doce do que a inocência, aquele estado de pureza onde a maldade não existe, assim como os enganos e as mentiras. O aprendizado que se segue é uma sequência de dissabores que vão moldando a tela à medida que o artista, no caso, a vida, vai enumerando os obstáculos e as dificuldades de lidar com o mundo.
        Este lugar de tranquilidade é o refúgio daqueles que não veem o mundo da mesma maneira. Em certos momentos das nossas vidas, a lembrança da infância é o principal refúgio. É o momento em que os problemas não são questões a curto prazo, nem mesmo temos ideia do que é o problema em si mesmo. Ao passar dessa idade, entramos em um não-retorno, que nos fará lembrar do estágio da inocência como um lugar romântico da nossa existência.
        A inocência nos faz enxergar o bem onde impera o mal. É a capacidade de se exilar do mundo, tentando encontrar detalhes na vida que lembrem às pessoas de que aquela capacidade de existir e resistir é possível. É um convite para trazer a esperança da infância para a fase adulta e promover os olhares mais simples e puros diante dos dilemas que o mundo apresentará. É uma disputa entre a tela e o artista. A primeira é o espaço onde a liberdade, realmente, existe. A segunda é o mundo e as outras telas que perderam a esperança e abandonaram o refúgio e insistem em cooptar adeptos para colorir de preto e branco um mundo que foi feito para ser colorido.
      Os olhares são os melhores indicativos da pureza e ainda conservam os traços da inocência naqueles que podem ver o mundo de uma maneira diferente. O cinismo é o vírus que tenta corromper a inocência. Infelizmente ele ainda encontra corpos prontos a aceitar a sua convivência.
        No entanto, é quando entramos em contato com o conhecimento que a nossa inocência entra em choque. A inocência pressupõe conhecer as coisas na sua superficialidade, como o algo cândido que nos move. Nela, reside a eternidade, quando não vemos o mundo como algo a ser abandonado e que, novamente, vamos cruzar o portal rumo a outro mundo, ou quem sabe, o mesmo, como um retorno após a missão cumprida.
      O conhecimento é a fonte das nossas desditas, quando tomamos parte sobre as coisas do mundo, a busca pelas razões da existência, e por que deixamos de ser inocentes para sermos, finalmente, seres humanos. Ninguém é tão inocente que não saiba e tão ignorante a ponto de fazer da inocência sua existência. E conhecer é, exatamente, lidar com esse dilema.

Origem da foto: Foto de engin akyurt na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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