
Terra devastada
Quando olhamos uma terra devastada, um deserto sem um verde, para quebrar a monotonia, podemos imaginar o que teria sido aquele lugar antes. Um tsunami, quando invade um lugar, leva consigo toda a lembrança, tudo o que foi construído pelo homem ou pela natureza.
Essas lembranças são como a nostalgia, um vento que varre a nossa memória e recordamos, como uma névoa, o que vivemos e onde, supostamente, fomos felizes.
Tempestades, nevascas, terremotos e outros fenômenos arrasam as flores, a mata, levam os animais, desabrigam pessoas e, depois, silenciam e voltam aos seus lugares, se tornam invisíveis. Tudo isso passa, mas as sementes ficam.
Podemos dizer que as lembranças são as sementes que guardamos para retomar nossas vidas. Nem mesmo os tiranos podem tirar de nós a sabedoria, a cultura e o conhecimento.
Certos homens têm esse estigma de serem a terra arrasada sobre tudo aquilo que entra em desacordo com o torvelino de maus pensamentos que habita suas mentes. E contra esses, guardamos a valentia e a força guerreira de permanecer vivos. Somos uma resistência contra as intempéries da natureza e contra as intempéries morais que nos abatem. Somos uma terra devastada todas as vezes que nos deparamos com as iniquidades, com as valentias covardes que tentam nos amedrontar porque demonstram, nas suas insanidades, o medo de serem derrotados.
Ditaduras, tiranias e insanidades são como tempestades que abatem as flores, os perfumes e as belezas de um jardim. Nesse ponto, nós somos os responsáveis por manter vivas as lembranças de tempos idos. Nada como a memória para lutar contra a falta de memória.
Tiranos e insanos são os primeiros a atacar a cultura que floresce, a história que os nega e a alegria de tempos anteriores. A primeira função da tirania, da soberba e da ignorância é ser a terra arrasada que devasta tudo o que vai de encontro aos seus pérfidos pensamentos. Liberdade é uma flor que floresce em todos os jardins, mas somente aqueles que se pensam donos de uma liberdade específica não são capazes de gerar uma semente que germine. Liberdades particulares são fadadas a morrer porque não foram germinadas na semente, foram plantadas, simplesmente, avessas à vida de um jardim.
Quando olhamos um deserto de ideias, imaginamos que, outrora, aquele lugar floresceu. Nossa função é encontrar as sementes que, com certeza, sobreviveram às tempestades e à fúria de insanos.
Uma terra devastada não é um final, mas um começo. Porque a memória funciona como a máquina contra o esquecimento. Uma terra devastada já foi útil e bela, e sempre será um lugar para recomeçar.
Origem da foto: Foto de Markus Spiske na Unsplash
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