Crônicas

Ter ou não ídolos?

       Afinal, ter ídolos é algo ruim ou não? O princípio da idolatria é a admiração exagerada, cultuar figuras públicas ou não, adorar uma imagem, uma figura, palavras, talvez. Seria como abandonar o seu eu para abarcar outro eu que está fora de você.
         Há figuras que eu admiro e há figuras que eu sigo. Penso que não seja saudável. Mas, algumas figuras que admiro, as admiro depois que se foram, porque não terão a oportunidade de desdizer tudo o que fizeram e escreveram, não mudarão a sua forma de pensar, que eu tanto admiro. Uma das coisas mais terríveis é ver alguém que você admira mudar de atitude, de viés ideológico ou político e criar órfãos do pensamento, não excluindo que todos têm o direito de mudar de opinião, enquanto podem.
        Na verdade, a admiração não deve ser focada na pessoa física, mas na sua competência e coragem para realizar coisas, ter atitudes francamente contrárias à nossa coragem de fazê-las, embora tenhamos essa vontade.
         A melhor forma de idolatria, na minha opinião, é a admiração, sem dúvida nenhuma, o reconhecimento pela história de alguém e considerar que ele ou ela, apesar de haver tomado atitudes e posicionamentos na vida, são seres humanos falhos, sujeitos a todas as possibilidades de mudança que um ser humano tem, ao longo da sua vida.
         Seguir palavras e pensamentos também não é uma atitude sensata. De pessoas sábias e/ou corajosas temos exemplos, pontos de partida para as nossas atitudes. Pessoas têm modelos mentais e formas de encarar o mundo, mas também segredos escondidos, não revelados. Muitas se escondem nos armários das suas personalidades e, quando revelam seus atos e pensamentos, chocam seus fãs e admiradores, e ganham outros pelos mesmos motivos, sejam esses motivos humanitários ou não.
        Penso que no mundo de hoje, onde as vidas privadas vivem por um fio, ideias procuram modelos que as materializem. Mais do que eles, esses modelos vêm a existir antes do pensamento de todos. E aí caberia a pergunta: os ídolos movem pessoas ou apenas tomam atitudes para revelar os reais pensamentos de pessoas e grupos?
        Ídolos, hoje, poderiam ser seres que conseguem verbalizar, encontrar eco nas suas formas de pensar e difundi-las. Os idólatras apenas os ouvem e encontram eco nos seus pensamentos. Ídolos, hoje, não são mais figuras, imagens, eles são ideias que vagueiam pelos pensamentos. Ídolos são preconceitos, são ideias humanitárias, formas de vida, formas de lidar com problemas, soluções fáceis e simplistas para problemas complexos.
          Ídolos físicos, hoje, são descartáveis, as ideias saltam de um para outro, e ideias sobrevivem por serem admiradas ou adoradas para satisfazer egos.
        As mentiras são os maiores ícones na pós-modernidade porque agregam e saciam as vontades mais mesquinhas de alguns seres humanos. Se uma mentira é suficiente para agregar grupos e pessoas, ela surge como uma necessidade para manter a mesquinhez e a desumanidade unidas ou em outras formas de idolatrar.
        Ter ou não ter ídolos tem a ver com decepções. Algumas vezes, o mundo parece sem rumo, com hordas em busca de motivos para adensar e manter pensamentos. Os ídolos são difusos e, na verdade, a grande maioria quer ser ídolo de outros. Logo, idolatria é algo descartável e se submete ao gosto do freguês.

Origem da foto: Foto de Matteo Discardi na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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