Crônicas

Preço da inutilidade

         A realidade é dura e as vitórias são aparentes. Muitos de nós, antes de dormir, pensamos em nossos erros ou celebramos alguma vitória, o que nos dá uma sensação de frustração ou de felicidade. No entanto, nossos erros parecem ser maiores do que as vitórias; até porque os erros parecem eternos e as vitórias efêmeras. E tudo isso são apenas batalhas que antecedem outras batalhas, com vitórias ou derrotas. A luta é insana e o preço que pagamos é alto, revelando a inutilidade de algumas delas.
       Se olharmos em um espelho, a nossa imagem refletida mostra uma parte externa que deve sempre sorrir e mostrar otimismo. Na luta profissional, vence aquele que mantém a aparência da tranquilidade, ainda que perca a sinceridade e a franqueza de poder ser o que se é.
        O grande espelho de hoje é uma tela de computador que não reflete, como o espelho, a nossa imagem. A tela copia e cola o que desejamos ser para os outros, cobertos pela aparente felicidade nos sorrisos exibidos. São atitudes inúteis e pagamos um preço muito alto por elas: a nossa verdade e o que queremos ser, na realidade.
     Pode-se criar uma realidade virtual, colocar nossos rostos e imagens em lugares que nunca visitaremos, usando coisas que nunca compraremos e acompanhados de ausências, embora emoldurados por outros rostos sorridentes.
       Antes lutávamos para ser alguém, hoje lutamos contra nós mesmos para demonstrar para os outros aquilo que não somos: somos belos sorrisos e a alma em frangalhos.
       Quantas vezes demonstramos o nosso cansaço não com a profissão, com os amores e os problemas familiares, mas o cansaço com a vida. Não é um desejo para sair dela, antes que o destino determine, mas ser outro alguém, que tenha mais oportunidades e possa demonstrar o nosso talento e fazê-lo marcante. A realidade virtual nos cobra o preço da nossa vida inútil com um simples teclar de peças, diante de uma tela, com as imagens que desejamos e as palavras que queremos. Podemos criar tudo aquilo que imaginamos, mas não transpomos a nossa alma, e ela permanece quieta e muda, imaginando o preço do “nunca mais” ou de nunca ser aquilo que imaginamos um dia.
        Diante do cenário virtual e do convívio social aparente, compartilhamos nosso fingimento lendo palavras inconcebíveis de gente que não imagina o preço que se cobra quando lidamos com coisas e gente inúteis.
       Somos a força contida por convenções e preconceitos. O preço que se cobra vai muito além do que podemos pagar. Pagamos o preço da exposição quando somos bombardeados de insanidades, e pagamos o preço da exclusão, da cobrança por não ser como todos são. Quantos vivem em evidência e não têm ideia da sua inutilidade, porque o descarte pode acontecer a qualquer momento.
      Somos o cansaço da rotina e também somos aqueles que precisam parecer estar bem, e, para isso, o preço a ser pago é muito alto: ser inútil, ser cancelado ou ser esquecido. Estar nas mídias sociais é tentar não ser esquecido, mas o preço dessa inutilidade é muito alto. O preço que se paga para ser desconectado é alto, mas quanto vale ser útil para si mesmo?

Origem da foto: Foto de Den Trushtin na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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