Limiar dos corpos
Os limites representam fronteiras intransponíveis ou não, podendo ser físicas ou espirituais. É claro que estabelecemos algumas fronteiras que evitamos transpor, assim como fronteiras que criamos para que outros não as transponham. Pensando assim, nosso corpo representa um universo que guardamos com carinho, o preservamos o mais que podemos e atuamos, de uma maneira geral, para que ele sempre funcione. Por isso, guardamos uma fronteira, um limite entre nós e o mundo; em princípio, a nossa autopreservação.
Se falamos de sentimentos, falamos de um tesouro que mantemos nesse corpo. É claro que também os maus sentimentos não deixam de ser um deles. E como são nossos pecados que conservamos secretamente, também quanto a eles estabelecemos algumas fronteiras para que determinadas ou o total das pessoas não tomem conhecimento; então, mais um sentido de autopreservação.
Assim como todas as fronteiras, elas significam um desejo de conhecer, porque, afinal, se não conhecemos bem alguém, queremos a todo custo entender aquela mente e aquele corpo e, para conseguir isso, abrimos determinadas portas e permitimos que estranhos venham a transpô-las. Acontecendo isso, abrimos uma possibilidade de nos contatar com o mundo e estabelecer uma troca de sentimentos que se comunicam por essas portas, mutuamente, abertas.
Assim como o contraventor ou mesmo aqueles que procuram o tal jeito certo de ser agem da mesma forma, não sabemos, no fundo, quem são aqueles a quem permitimos entrar em nossas vidas e, da mesma forma, quando alguém se abre para nós, não sabemos o que vamos encontrar.
Por outro lado, os corpos têm os seus truques para se conectarem. Um deles é o beijo que trocamos com alguém e até mesmo os abraços. Um beijo, antes de tudo, é um abandono de regras e preconceitos, quando um ser que habita dentro de nós se vê envolvido em uma atmosfera de medo e ternura, abandono e busca de um porto seguro. Além disso, o abraço tem uma posição importante porque ele abre uma porta física, quando estendemos nossos braços para abraçar alguém.
Porém, o beijo carrega todo um significado de entrega. São portas que se abrem para que cada um se intrometa no outro e, com os olhos fechados para a realidade, um mundo de emoções se mistura, uma química se desfaz e tudo se torna uma torrente de descobrimentos e temores. Este limiar do corpo significa um poder de atração que prenuncia algo muito maior e mais envolvente; afinal, dois corpos decidem que não podem mais estabelecer fronteiras e que o tempo de reconhecimento se foi e resta, somente, que dois universos se comuniquem e formem novas constelações.
Abraços são ternos e cautelosos, beijos são ardentes e sem fronteiras a limitar a sensação dos corpos.
Por mais que os likes e as mensagens sejam trocadas entre dois corpos, ainda é o beijo o selo de permissão para que fronteiras sejam transpostas. O beijo é o limiar que isola o mundo exterior dos corpos e, assim como os corpos, a natureza mantém o seu beijo quando a noite encontra o dia, o céu encontra o mar no horizonte distante e o vento sopra suavemente e balança as pétalas das rosas.
O limiar dos corpos é uma linguagem que não emite som, apenas a luz, e faz com que as fronteiras, os limites de tudo aquilo que a censura e a cultura nos impõem, percam seu sentido de isolamento para um espaço de paz.
Origem da foto: Foto de Align Towards Spine na Unsplash
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