
Diário do tempo
O tempo é uma abstração. Marcamos os segundos, minutos e horas e vamos tentando organizar nossa passagem pela terra, e também o futuro, quer seja o tempo que falte, quer seja o tempo que já passou. Essa abstração, esse vazio, paradoxalmente, é preenchido pelos nossos projetos, nossas culpas, nossos acertos e nossas esperanças. Sempre marcamos o tempo restante para realizar algo ou para esperar que algo aconteça. O tempo, assim como a esperança, é o vazio e, ao mesmo tempo, cheio de coisas intangíveis, mas caras para nós.
Logo, a abstração pode ser tanto a ausência como a presença máxima. Assim como o tempo, abstrair-se do mundo também é abstrair-se do tempo, não do tempo contável, mas do tempo que se imobiliza para que tenhamos um momento para respirar e nos defender contra o próprio tempo.
Alguns são condenados por abstrair-se, por dar um tempo na loucura da vida e serem egoístas, algumas vezes, dignos de ciúmes, quanto a essa capacidade de se ausentar e estar vivo ao mesmo tempo. Aquele que tem essa característica tende a não se envolver com coisas fúteis, mas nem por isso pode ser considerado despreparado para enfrentar o mundo.
O refúgio mental ainda é o melhor local para tentar colocar as ideias em dia. No frenesi das informações, a tendência é poupar tempo, eliminar tudo aquilo que é considerado supérfluo e tentar encontrar as saídas do labirinto que é viver. Se pensarmos assim, a abstração é um mecanismo de defesa contra o tempo, que nunca pausa sua caminhada. Isso tem a ver com a capacidade de alguns “abstraídos” insistirem em focar no seu objetivo, eliminando as superficialidades da vida comum.
Esse absoluto silêncio da abstração, na verdade, envolve uma certa capacidade de se retirar e se envolver em um projeto pessoal, pensando no tempo futuro. Logo, o desperdício momentâneo perde o sentido, trocando-o por um tempo futuro que significará um ganho considerável.
Abstrair-se é pensar duas vezes: a primeira vez, ao abandonar os pensamentos que envolvam os relacionamentos, quer sejam amorosos, profissionais ou pessoais; a segunda, é encontrar as soluções dos próprios problemas, buscando um lugar seguro para argumentar consigo mesmo e pouco importa o tempo que leve.
Uma viagem sem pensar em nada do que ficou para trás tem um significado importante no sentido de refrescar a mente. Olhar a paisagem é como tentar entender o significado dos objetos que são vistos. É como olhar para uma pintura e imaginar mais além dela e encontrar o motivo pelo qual o artista empregou o seu tempo “perdido” naquela abstração; um encontro de iguais, embora vivendo em mundos e tempos diferentes.
Nossa capacidade de abstração está sendo sequestrada por uma obrigatoriedade de manter-se antenado com o mundo. Essa obrigação leva muitos a se esconder atrás de telas iluminadas, em vez de encontrar a si mesmo, longe desse tempo que teima em avançar rápido demais.
Abstrair-se não é distrair-se, portar-se como um alienado, mas exercer capacidade de autorreflexão. Talvez aqueles que pratiquem isso tenham a capacidade de aproveitar melhor o tempo e fazê-lo, mesmo de uma forma metafórica, parar um pouco para respirar também.
Origem da foto: Foto de Aron Visuals na Unsplash
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