Crônicas

Quem você se torna enquanto envelhece?

        Na infância, é comum perguntar a uma criança ou aos mais jovens, em geral, o que você vai ser quando crescer. Essa pergunta encerra esperanças e expectativas quanto ao futuro, tanto para os pais quanto para os filhos. Afinal, o que está mais além é um espaço vazio a ser preenchido. Devemos levar em consideração as condições socioeconômicas de cada um. Para cada segmento de classe, esses espaços vazios são amplos ou estreitos.
        À medida que crescemos, essas expectativas se tornam um corredor de acesso, de subida de classe social, e as estratégias são variadas e adaptadas de acordo com as circunstâncias e realidades de cada um.
      Esse caminho, repleto de obstáculos e armadilhas, vai moldando nossa personalidade com o passar do tempo. E as peripécias e reviravoltas da vida vão definindo o que seremos quando envelhecermos, e o tempo não nos dá a chance de retornar, refazer os erros passados e proporcionar novas tentativas.
        Nunca nos perguntam o que você vai ser quando envelhecer?
        Ninguém é capaz de prever o futuro, a despeito das enfermidades e acidentes naturais ou não, que vamos encontrar. Ninguém é dono do seu destino e capaz de prever os acontecimentos. Nada está escrito e tudo está por escrever. Essa escrita é o nosso diário definidor do futuro, que vai chegar, não importa o que pensemos dele.
       Portanto, o que você se torna ou se tornará está acontecendo, e como vamos envelhecer é a questão em nossos pensamentos. A vida, na tal terceira idade, é dura. Muitos se deparam com o medo da morte, ponto final e presumido da nossa existência. Podemos estar plenos de energia, embora as tarefas que gostaríamos de desempenhar não sejam possíveis, porque o corpo não acompanha essa energia e essa vontade. Gostaríamos de chegar à velhice ainda esbanjando charme e glamour, ou seria melhor a sabedoria, que traz uma melhor maneira de lidar com o tempo? Saberemos administrá-la, escolher as batalhas e não perder nosso tempo com debates ridículos?
      As pessoas mudam ou não? O jovem reacionário, embora visto com desprezo porque a idade vai ensiná-lo, talvez possa se tornar um idoso ou uma idosa mais reacionário, agora envolto no desprezo pela vida do outro e por ideias arcaicas e preconceituosas. O jovem libertário, embora visto como excêntrico, pode se tornar um idoso ou uma idosa alegre e de bem com a vida, ainda exalando juventude e uma adaptação ao futuro que o tornariam um exemplo de vida.
       A idade não ensina a quem nasce com um aprendizado pronto, seja reacionário ou libertário. A idade pode ratificar o que sempre fomos; afinal, de berço, trazemos muitas coisas. Para alguns, a maneira de lidar com maestria os problemas; para outros, a vida de arrependimentos e amarguras de que a vida passou e o quotidiano foi um eterno inimigo.
      A questão é se reinventar a todo instante. É poder abandonar uma ideia e abraçar outras, curtir novas experiências, dentro da realidade possível. Envelhecer e se tornar um utensílio a mais, um estorvo na sociedade que pede mais energia, é uma questão lógica. Ninguém gosta de coisa velha; nem os velhos, acostumados a sempre verem o novo acontecendo.
      Tem gente que envelhece, e de tão velha, nem alguns velhos gostam dela. Ver a juventude se divertir e se divertir ao longe com ela, sem querer interferir naquela dinâmica à qual não se pertence mais. Mas assumir o lugar de espectador que já pertenceu a outros, no passado. Passar de observado a observador, de jovem a idoso, com a calma do tempo que vai passando, se divertindo e se preparando para novos velhos tempos a seguir.

Origem da foto: Foto de Esther Ann na Unsplash

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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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