Crônicas

Reboot no fim do mundo

        Sim, um dia o mundo vai acabar. Com certeza, o mundo que conhecemos pode acabar, mas a Terra vai continuar a girar, parar ou qualquer coisa nesse sentido. Se o universo fosse gerido por um programa de computador, por uma IA dessas de fim do mundo, poderíamos torcer para que ela, no derradeiro momento, travasse e o reloginho ficasse rodando, rodando, por um erro de programação celestial.
       Nesse exato momento, o arauto do fim do mundo desce e se depara com a humanidade, em plena sexta-feira, festejando um happy hour universal. Poderia ele se perguntar a quantas anda a humanidade sem se preocupar com o fim dos tempos, simplesmente preparando o fim de semana… ou dos tempos.
       Essa situação hipotética nos levaria a pensar que esse conceito, acredito, nas culturas modernas, seria a procrastinação para enganar o próprio tempo em seu percurso. As sextas-feiras têm um sentido de fim do mundo, de fim do trabalho e do início de um descanso semanal, um tipo de ensaio para o final da existência.
      Mas se imaginarmos a figura do computador girando sem dar uma sequência até o ato final, seria a forma de pensar que o programador universal, em alguma saída de happy century colocou uma linha de programação indevida, um bug, o que proporcionou à humanidade, no caso da nossa, uma nova chance.
       Em realidade, o que nos levará ao fim dos tempos será a nossa irresponsabilidade, capitaneada pela nossa maneira de não levar as coisas a sério. Se um determinado país resolve começar uma guerra, poderíamos dizer que não leva, seriamente, nossa estada no planeta. Até porque arriscam coisas que não fazem sentido; utilizam armas de guerra para resolver contendas, o que é uma prova de que realmente não querem resolver as coisas. Se houvesse alguma seriedade nisso, o mais viável seria não capitanear novas guerras.
      Se o arauto do universo viesse comprovar o final da nossa existência, realizando algum ato sobrenatural, ele poderia comprovar, facilmente, que nem precisaria se dar ao trabalho, porque a própria procrastinação já é uma atitude de autodestruição, logo, a humanidade já estaria “travada” na sua própria maneira de viver.
      Por outro lado, essa procrastinação de adiar para a próxima semana a solução dos problemas, nos permitiria viver mais tempo, sempre adiando o final do mundo, o final dos tempos e nada como uma sexta à noite para uma ida ao cinema, um sábado para festejar um churrasco com a turma e, é claro, o futebol aos domingos.
      A paz poderia ser consolidada com uma segunda-feira enfadonha, indesejada e por que alguém abriria uma contenda logo na segunda, quando o final de semana ainda está longe. Além disso, alguns feriados poderiam colaborar para esse adiamento escatológico. Se a discussão está indo por um caminho perigoso, vamos pensar sobre isso na próxima segunda, porque no próximo final de semana, com um almoço, umas bebidas, nada pode ser resolvido. Afinal, depois de alguns dias, é hora de “sextar”.

Origem da foto: Foto de Aron Visuals na Unsplash
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Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca, escritor, graduado em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosta de escrever, principalmente, crônicas e artigos sobre comportamentos humanos, políticos ou sociais. É detentor de vários prêmios em Literatura

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