A língua pendurada como se começasse pelos olhos largos e pedintes, e o focinho, ainda úmido da golfada de água posta ao lado por uma alma caridosa, que teimava em pertencer à aldeia dos farejadores, não fazia dele um cão diferente daqueles que perambulavam pelas ruas. Por anos fazia a caminhada interminável para lugar algum. Teve a companhia de muitos, não por afeição, mas por se aproximar de abandonados como ele, cães ou mendigos.
        Quando decidiu, finalmente, deitar ao longo da estrada poeirenta, exausto de uma viagem sem fim, levantou a cabeça e tentou adivinhar onde estava; um gesto vazio, porque há muito tempo não fazia a menor ideia por aonde andava. Sua vida fora uma busca interminável. Teria noção de onde estava, para aonde ia? O mundo, para ele, sempre foi a passagem de pernas esticadas, como se andasse em uma selva de galhos que se mexiam, bamboleantes, agitados por um vento imaginário.
        A sua memória ainda guardava o último grito, a última lembrança de uma voz fina e suave que lançava no ar um assobio leve e uma série de notas que o identificava: pretinhooooo!! Sabia que indo na direção daquele som ganharia afagos e petiscos, às vezes um banho do qual tentava fugir e mãos firmes e carinhosas o tornavam mais sedoso e com um cheiro diferente. Tinha um lugar para dormir, e as orelhas a se levantarem contra qualquer som diferente que pudesse ameaçar o seu pequeno território. Tinha uma grade onde enfrentava os vilões que passavam além dela. Era o seu domínio, seu cheiro impregnava cada canto, cada folha de planta.
        Farejava o ar e tinha um cheiro de sal no vento, e podia correr em uma terra fofa, branca, que os raios do sol tornavam brilhantes e rolar por ela, com uma criança a brincar e a rolar também. Era inesquecível aquele cheiro de sal pelo ar, com o vento brincando em ondas com os pelos do seu corpo. E ele, semicerrado os olhos, e as suas patas alcançavam o cimo de um monte, identificando um azul longínquo. Latia para um nada, apenas pela vontade de mostrar que era o dono daquele monte e imperava sobre o azul, e fustigava a água teimosa que não queria lhe obedecer, no seu ir e vir incansável.
        Depois, suas orelhas levantavam como sinal de alerta e umas pernas que se aproximavam não tinham mãos que o afagavam, mas que o elevavam do solo, e de lá via um mundo diferente, como se ele fosse feito de andares.
        Uma noite a casa começou a encher de gente, ele farejava todos, recebia afagos, ficou alegre por sentir tantos cheiros diferentes. O amigo com quem costumava brincar corria atrás de outros e ele, com os olhos felizes, acompanhava toda a movimentação, e tentava participar da brincadeira, se entrelaçando por entre as pernas dos visitantes. Foi quando se assustou com uma série de barulhos, em que as pessoas gritavam e se abraçavam, e ele, desnorteado se atirou na direção do portão aberto e correu pelas ruas para se esconder daqueles decibéis que o atormentavam.
        Depois do silêncio, olhou em volta e se viu em lugar nenhum. Ainda ficou escondido algum tempo, e logo depois alguns cães o atacaram e mais uma vez ele correu.
        Chegou a ouvir a voz que o chamava, mas não conseguia chegar até ela, diante de um labirinto de muros, matos, e os outros cães sempre o afastavam daquele som, até que ele nunca mais o ouviu. A noite foi embora e o dia chegou com a fome e uma saudade imensa do lugar onde dormia.
        Com o tempo, o seu pelo foi perdendo o brilho, poucas vezes levantava o focinho para tentar identificar alguma criança que passava, sua aparência foi se alterando e ele, misturado aos outros cães que perambulavam pelas ruas, passou a ser apenas mais um deles.
        A partir daí, seu olhar perdeu o viço, e em vez de semicerrá-lo para dormir, ele passou a enxergar ao longe, pressentindo perigos escondidos. Mãos o pegaram, conviveu em lugares estranhos, fugiu pelas ruas, e as fugas foram sempre seguidas, umas às outras, de maus tratos, carinhos de gente de hálito que o seu olfato denunciava como ruim, que nem de longe lembravam as mãos que o afagaram.
        Seu corpo magro se transformou em ossos que se pronunciavam, os lugares duros onde dormia fizeram pontos dolorosos no corpo e o mundo passou a ser aquelas ruas, e a sua dormida os trapos que homens andrajosos lhe davam, ou no meio de jornais, encostado em corpos de seres sujos, procurando o aquecimento em noites frias.
        Seu focinho, sempre vigilante, ainda farejava no ar algum odor conhecido, as orelhas ainda se alertavam na busca do som distante, guardado na memória, e aquele cheiro de sal.
        Deitado na terra amarelada, com o vento levantando uma poeira rala, olhava a paisagem em frente ao nível do chão, como se o mundo se tornasse pequenino, e recordava de um lugar onde podia olhar de um andar mais alto em movimento. E latia, sob os risos suaves de uma criança, para as pessoas que ficavam paradas, enquanto ele voava e sentia o vento mexer nos seus pelos, com a cara acomodada em uma janela, seguro e confiante nas mãos que conhecia tanto.
        Olhava, agora, o mundo no seu mesmo plano e o aceitava, obedecendo às imposições de construções, ruas movimentadas, fugindo de carros que freavam próximos ao seu corpo, e era escorraçado para as calçadas, onde permanecia alerta para qualquer ataque.
        Seus pelos embranqueceram, os olhos já não enxergavam tão bem assim, e via um mundo passar velozmente, um burburinho intermitente de carros e pessoas. E alguém jogou alguma comida, que devorou com sofreguidão, mesmo impregnada da poeira fina.
        A noite chegou, seus olhos cerraram, e ainda podia ouvir o zumbido de moscas à sua volta, já desistente de afastá-las com o rabo inerte, impotente para a batalha final. Se dava por vencido e o sono, uma espécie de descanso, chegou.
        Depois estava correndo por uma grama curtinha e alcançou uma elevação e pode novamente rever aquele longínquo azul e o vento suave brincar com seu focinho úmido e pode rolar por uma terra fina e branca.
        Sentou nas patas traseiras e esperou, pacientemente, a chegada de uma voz cheia de risos e brincalhona.

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