DIVISÕES COMO ARGUMENTO

     Com o fechamento das urnas em 2014 e sagração de um eleito, e devido às divergências naturais, o que sobrou não foi um país dividido, como argumentam alguns, inclusive mostrando o nordeste do Brasil em oposição com o sul. Não é verdade que o país foi dividido, a verdade é que o país é dividido, sempre foi, como bem demonstrou o sociólogo Alberto Carlos de Almeida em recente programa de entrevistas.
     A divisão que acontece no Brasil é natural em vários países no mundo. Mas, duas coisas exacerbaram as expectativas nesta eleição: a demonstração de que, ao invés de um povo pacífico e cordato, somos racistas, xenófobos, preconceituosos, também como em muitos países no mundo, e que esta eleição nunca foi tão festejada pelos eleitores do escolhido, uma festa, como eu nunca vi, poderá ter havido alguma anteriormente, mas, como esta eu nunca assisti.
     O discurso da divisão do país, por causa da postura de um partido, na verdade inclui um pensamento divisionista, que interessa a alguns setores da classe dominante, para que cada vez se unam e não se dispersem, como se esse movimento se assemelhasse, por alguns instantes, aos verdadeiros combates sociais que as sociedades empregam na busca do bem-estar, e contrários aos ditames ditatoriais de alguma personalidade emergente.
     Nada disso. Esse discurso já é preconceituoso no seu nascimento, ele sim nasceu do preconceito, da xenofobia e do racismo, e pior ainda, da própria ganância de nunca dividir o bolo integralmente, mas continuar na mesma política de distribuição de migalhas, como um favor, como uma benesse, como uma generosidade.
     E na falta da generosidade é que esse discurso se encaixa.
     “É a bolsa-família, estúpido!”, dizem os defensores daqueles que trabalham, que dão o suor de seu rosto para o país, como se os representantes do escolhido, que não são beneficiários daquele instituto, fossem um bando de néscios e ignorantes.
     São generosos.
     Também trabalham e dão o suor do rosto para o país, mas, não dão as costas para aqueles cuja presença os envergonha, não pelo que estão, mas pelo estado em que estão. É impossível enxergar o futuro, arrastando atrás de si uma imensa população trazida a reboque, como se numa caminhada pelo deserto, aqueles apenas servissem de figuras de suporte e sustentação para os mais providos.
     Somente na época de eleição, a metade que optou por uma outra escolha lembra da existência da outra parte do Brasil. E, caso não façam a sua vontade, são chicoteados moralmente, e quiçá por falta de oportunidade não fisicamente, como se burros de carga fossem a não obedecer à voz de comando.
     Chega de pensar que o povo da floresta existe para que ela fique preservada para o deleite de um quintal florido. Eles também precisam de saúde e educação, e também de serem respeitados na sua cultura. Não é se lembrar do nordeste apenas quando aqueles se fantasiam nas festas populares para oferecer uma teatralização sempre postos às máquinas fotográficas. Pobreza e abandono não é exposição turística, são outros suores e muito mais amargos.
     Em pesquisa na internet pude apurar que existem nos estados “vermelhos”, os IFETs e seus campi: (Amazonas (15), Pará (18), Maranhão (26), Ceará (23), Piauí (17), Rio Grande do Norte (18), Paraíba (10), Pernambuco (9), Alagoas (14), Sergipe (6), Bahia (16, entre implantados e a implantar).
     A pergunta é que o resultado da escolha foi o pão, ou o pão e a educação? Ao contrário do pão e circo que as classes mais ricas e retrógradas estão acostumadas a distribuir?
     Nosso país é dividido, mas esta divisão não é apenas de racismo e preconceito, é de ignorância para os novos tempos que começam, vagarosamente, a surgir. E do futuro, deste futuro, quem está com medo?