Vitinho olhava, repassando com as mãos, sua última obra, enquanto relembrava seus últimos quinze casamentos. O décimo sexto acabava de bater a porta da pequena casa de vila em Quintino e sumia em um ônibus rumo a qualquer lugar. Seu olhar vagava sobre a pequena peça de pedra-sabão, esculpindo um seio estilizado, perfeito, como tudo que construía.
        O som da porta ainda reverberava na sua cabeça e ele pensava: mais uma ou menos uma?
Carla, Ana, Joana, que importava! Era, finalmente, mais uma que se retirava de sua vida. Nenhuma delas foi perfeita, ou que perfeitamente se encaixasse no seu estilo de vida: retirado, solitário, que precisava de silêncio, para o seu efeito criador, que às vezes necessitava do sexo, porque precisava extravasar, porque o seu pensamento se ocupava daquilo e ele precisava esvaziar o cérebro para poder ocupá-lo com sua criação, com sua necessidade também gozosa de criar. Era normal? É normal!! Era um homem e os homens são assim. Alice foi embora, seu nome era Alice. Cozinhava bem, a danada.
       Resolveu sair também. Na volta encontraria a solidão. Matias, seu vizinho, estava lavando o pequeno cacareco que chamava de bólide e acenou para Vitinho, doido para saber das novidades. Já adivinhara tudo, mais uma vez.
         – Alice se foi?
         – Como se você não soubesse!!!
         – É isso, meu amigo, não existe mulher perfeita no mundo.
         – Acho que não existe casal perfeito, meu caro. O duro é a gente se adequar a alguém.
        O outro não respondeu e Vitinho foi caminhando, perdido até o pequeno centro de compras. Rodou pelas vitrines, mais enxergando o seu reflexo do que o que era oferecido. Nas lojas de bugigangas admirava-se das pequenas maravilhas plásticas inúteis, nos objetos de decoração, reproduções de obras de artes, profanações aos seus olhos.
        Ao passar diante da pequena loja de roupas, seus olhos pararam fascinados para o que via. A funcionária da loja ajeitava a sua vitrine, vestindo um manequim.
     Vitinho olhava para ela embevecido. A boca com um sorriso imperceptível, os longos cabelos loiro-castanhos desciam pelos ombros, os olhos de uma cor indefinida olhavam o vazio e o seguiam de um lado para outro. O nariz de fino acabamento, sobrancelhas, o corpo longilíneo, as pernas comodamente assentadas uma sobre a outra, faziam dessa dama, confortavelmente sentada numa cadeira de vime, arregimentada em algum canto perdido de uma sala, um trono especial, quase uma rainha.
        A paixão foi primeira. Ficou perdido alguns minutos admirando aquela figura, parada e perdida diante dele.
         – Deseja alguma coisa, senhor?
        A insistência da outra vendedora acordou Vitinho.
         – Ahn! Ah! Sim. Você me vende a moça da vitrine?
         – O que o senhor está dizendo? respondeu, imaginando uma cantada sem graça.
         – Você não entendeu. Eu quero comprar o manequim. Eu falo dela, da moça.
         – Não entendi, senhor?
         – O manequim, quanto você quer por ele?
      A vendedora se retirou para o fundo da loja, imaginando alguma loucura. Ato contínuo, Vitinho entrou e perguntou, novamente.
         – É sério, eu quero comprar o manequim.
         – Moço, aqui nós vendemos roupas, não manequins. Se o senhor quer um vá na fábrica!!!
       – Mas eu quero aquele, eu pago, e você compra outro na tal fábrica. Mas eu quero aquele. Quanto custa? Ela, mais a roupa.
        As vendedoras se entreolharam e consultaram a dona da loja, e o olhar comercial falou mais alto. O preço cobrado foi além do que foi pago. A satisfação da proprietária foi evidente diante da não objeção pelo preço. Cobrara o suficiente para afastar os desejos inusitados do estranho comprador, o que não conseguira, e com certeza poderia colocar não um, mas dois manequins em sua vitrine, não sem antes valorizar a mercadoria, no caso o manequim, dizendo que era à prova d’água, inclusive os cabelos, feitos de um material impermeável, sujeito a qualquer tipo de penteado.
      Vitinho adentrou na pequena vila arrastando sob suas asas uma mulher, a sua mulher. Matias ainda lavava as ferrugens de seu carro, e incrédulo observou o vizinho abrir e com cuidado introduzir em sua casa um… manequim.
        – Que diabos está acontecendo, Vitinho?
        – Minha mais nova decoração, se importa?
        Matias não objetou nada, diante das esquisitices do seu vizinho artista. Mas, um manequim de roupa e tudo já era esquisito demais.
      Vitinho entrou na pequena casa e colocou o manequim na cadeira em frente à televisão, com as mesmas pernas cruzadas como vira na vitrine. Entusiasmado, sentado na pequena mesa, observava aquela linda dama de olhos fixos nele. Levantou-se satisfeito e foi tomar seu banho. Sentiu falta de uma companhia feminina, das brincadeiras debaixo do chuveiro, mas lembrava-se também das brigas por nada, do inconformismo das suas ex- mulheres por ele atravessar as noites em seu trabalho, nos momentos de circunspecção que se entregava no seu processo criativo, como ficava irritado vendo seu trabalho interrompido, e sorriu da sua solteirice. Lembrou-se de que como Regina poderia estar ali agora com ele, mas não exatamente uma de suas ex-mulheres, mas o manequim. Não sabia por que batizara com esse nome, a sua peça de decoração. Talvez por que fosse a rainha do seu lar dali por diante.
      Resolveu apanhar o manequim, despiu-o cuidadosamente e o transportou para debaixo do chuveiro, adorando sua nova companhia. Terminou seu banho e o enxugou cuidadosamente, e depois de vesti-lo o colocou majestosamente na cadeira da sala. Feliz. Tudo isso ela fez sem uma queixa, sem ela despregar por um momento o sorriso dos lábios.
        Magnífico! Uma mulher perfeita. Sempre à disposição do seu olhar. Vitinho se entregou às suas obras e não viu o tempo passar, sempre deliciosamente observado por Regina, que parecia antes de tudo admirar o que ele fazia. Olhares fixos em suas mãos laboriosas.
        Nunca lera um jornal com tanta tranqüilidade. E se ainda se assustava com o novo momento, ao levantar os olhos deparava-se com o sorriso complacente de sua nova companheira, aparentemente concordando com o seu comportamento.
      Dedicava horas ao seu trabalho e da produtividade alcançada, sempre ela estava ali sorrindo, apreciando a sua dedicação. Não poderia levá-la para passear. Passeava sozinho, feliz, porque tomava os atalhos que quisesse e dava as voltas que julgava necessárias e fazia as paradas que quisesse.
        Quanto às suas crises? Bem, agora o aborrecimento era consigo mesmo. Regina parecia sempre concordar com as broncas que dava em si mesmo, claro que atenuadas pela sua própria lógica e o sorriso dela. Sua posição imperial na cadeira, mas sempre submissa à vontade dele. O sorriso de Regina, sem ironias, sem brincadeiras, sempre um sorriso.
        A nova vida de Vitinho não passou despercebida pelo vizinho. Matias não conseguia entender como alguém que acabara de sair de um casamento, ainda por um mês se sentia como que realizado.
        No início a euforia era plenamente justificável, mas depois… acostumara-se às crises do amigo e sempre estava disposto a ouvi-lo se lamentar. Mas agora…!!! O que estaria acontecendo. Com certeza arrumara um novo amor e não era justo que ele o mantivesse na ignorância.
       Apesar das tentativas de Matias, Vitinho permanecia em silêncio sobre um possível romance. E a história do manequim era muito estranha, apesar de que artista tinha lá suas manias. Decidiu vigiá-lo.
       No dia seguinte, após a saída do vizinho, Matias decidiu fazer uma visita a casa. Empurrou a janela que ficava sempre encostada e vislumbrou uma olhada na pequena sala. A única coisa que era diferente, a presença de um manequim com uma roupa verde. Majestosamente sentado em uma cadeira, com um olhar na direção da porta, esboçando um leve sorriso. Matias não pode deixar de observar aquele sorriso. Retirou-se dali, e, durante a noite, enquanto assistia à televisão, observou um silêncio na casa de Vitinho que nunca havia notado. Uma espécie de paz vizinha que começava a incomodar o seu silêncio.
        Decididamente alguma coisa havia e a sua curiosidade não o deixava sossegado. E outra coisa o incomodava: o sorriso daquela moça, o vestido verde levemente jogado sobre as pernas faziam daquele manequim, mais do que um manequim: uma presença marcante na pequena sala. Mais do que um objeto de decoração, segundo o vizinho, a presença feminina, como um quadro. Mas que diabos estava pensando? Aquilo não passava de um manequim, uma das idéias malucas do Vitinho.
        Seria possível que um manequim teria sido capaz de transformar a vida dele? Não, não seria possível. Artistas têm lá suas coisas estranhas. Mas uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa.
     Os dias se passavam, e Vitinho, habitualmente conversador todas as vezes que chegava, passou a entrar rapidamente em casa, feliz, radiante. Era demais, algo estava acontecendo e havia de descobrir.
       Junto a isso, a imagem daquele manequim estava cada vez mais presente em Matias e não poucas vezes se aventurou a olhar pela janela e admirar o objeto de desejo: o manequim do vizinho. Ela ali, sempre parada com o olhar atento na direção da porta, o sorriso de boas-vindas para entregar. Tivera a impressão que o manequim também olhava para ele. Para qualquer lado da janela em que estava, o olhar dela o perseguia. Reparando bem, era praticamente uma mulher. Linda, majestosa, o vestido verde descendo suavemente pelas pernas. Tinha uma cabeleira formidável, os lábios finos, esboçando um leve sorriso, puxa, era linda, linda mesmo!
         Será que Vitinho também sentira aquilo? Artistas têm um pensamento diferente. Artista era artista. Não viam as coisas daquele modo. Para ele um objeto de decoração, mas para ele, Matias, a coisa era bem diferente. Gostaria de ter uma mulher assim na casa dele, também. Nem que fosse para decorar. Pensando bem, até para mais algumas coisas.
        Poderia tomar emprestado. Vitinho não se incomodaria. Aliás, era só um manequim. Não teria mal algum em usar um pouquinho. Sabia os horários dele. Por que não?
          Pensado e feito, logo depois Matias passava algumas tardes maravilhosas com o manequim. Detestava o vestido verde, comprou um vermelho, e calcinhas, sutiã. Era uma mulher perfeita. Uma doce companhia. Notou que a textura do plástico era macia, não se cansava de admirar e fazer carinhos nela. Pontualmente devolvia o objeto de desejo, devidamente paramentado no horroroso vestido verde.
         Já estava há pelo menos dois meses naquele “empréstimo” involuntário. Excedeu-se, sentiu vontade de ter mais alguma coisa dela. Despiu-a e desejou-a. Amou-a. Possuiu o objeto de desejo. Caiu na realidade e banhou o manequim. Reparou em um pequeno arranhão que deixara acontecer. Notou que havia outros. Seria uma peça já usada? Não parecia. Quando o viu pela primeira vez parecia nova. Notou alguns arranhões diferentes também. Será que por um acaso Vitinho também, digamos, amava de uma maneira exagerada, como ele, aquela mulher?
         Havia se julgado um pouco louco, mas também percebera que havia uma espécie de loucura por parte do vizinho. Estarrecido chegou à conclusão de que “comera” a mulher do amigo. Afinal, se Vitinho também fazia aquelas coisas, era lógico que ele era um traidor. Inadvertidamente, manchou os cabelos dela, e se apavorou. Como poderia devolvê-lo daquele jeito, manchado de vermelho. Cortou, aproximadamente, um dedo em toda a volta. A hora do amigo chegava e era preciso devolvê-la.
         Vitinho entrou em sua casa, cumprimentara Matias, perguntou se alguma coisa o preocupava. O outro disse que não. Mas parecia preocupado. Alguma coisa passageira. Encontrou o sorriso de Regina. Perguntou quase sem perceber. “Você cortou o cabelo?” Parou, pensou. O que estava acontecendo com ele? O que estava acontecendo com Regina? O que diabos estava acontecendo? Por que a sua janela estava entreaberta, e por que o cabelo de Regina estava mais curto?
        Pegou o manequim, sacudiu-o. Os cabelos estavam mais curtos e já não tinham o mesmo corte de antes, e de mais a mais quem pôs sutiã, ou por que ela estava de sutiã? Você está dando para alguém?
      Parecia que o mundo desabava sob seus pés. Olhava com desprezo para aquela que havia se tornado sua companheira predileta. “Você está dando para quem?” Mas era só um manequim. Ela não poderia estar dando para alguém. Mas possivelmente alguém estaria comendo ela. Mas quem? Onde poderia existir um maluco como ele? Apaixonado por um manequim.
       Só um flagrante poderia esclarecer aquilo. Poderia também manter a janela fechada, e o outro também não poderia mais entrar… Mas como!! Matias era o único que sabia que sempre deixava a janela sem tranca para o caso de alguma emergência, em troca ele sabia que a do amigo ficava sem tranca para uma emergência… Então era isso, somente o vizinho poderia estar fazendo alguma. Talvez cortara o cabelo e colocara um sutiã como trote, brincadeira dele. Que ideia maluca! Afinal encontrara a mulher perfeita e desse susto estava livre. Afinal só outro maluco acreditaria na sua história.
     Foi até a casa do vizinho e olhando pela janela, espionou. Em cima de uma cadeira na sala, arrumado cuidadosamente uma peça vermelha. Entrou na casa do amigo e descobriu um lindo vestido vermelho. Seu mundo desabou. Pensou:
          – Ela me traiu!!!
          Logo depois, refletiu.
          – Ela não pode ter me traído. Ela é um manequim. Aquele cretino, sim. As marcas no manequim, as suas marcas já tinham outras marcas.
       No dia seguinte, usando luvas até o antebraço, enquanto Matias lustrava seu bólide, passou uma química no manequim, que ao entrar em contato com o sol assumiu uma coloração vermelha.
          – E aí, disse Matias, já preocupado, com a saída da outra da casa do amigo, vai levar o manequim para passear?
        – Não. É que ontem eu testei um preparado químico e deixei no manequim o dia todo. Ele reage com a água e o sol. Como você vê, mesmo no dia seguinte, diante do sol ficou todo vermelho.
          – E por que estas luvas tão grandes? disse Matias, preocupado.
          – É porque eu não quero ficar vermelho também. Já imaginou você ficar dias e dias todo avermelhado.
          Matias parou de lustrar o bólide e correu para a casa.
           – Sua vagabunda! disse Vitinho, diante do sorriso enigmático de Regina, e, incontinente, despedaçou a amada.

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