
Falso brilhante
Algumas vezes, as pessoas levantam a hipótese de estarmos vivendo em uma “matrix”. Ou seja, tudo ao nosso redor seria uma mentira. Viveríamos em um mundo de falsidades e aparências. De certa maneira, vivemos nesse mundo imaginário. Quantas vezes saímos às ruas vestindo a melhor roupa, nos perfumamos, penteamos o cabelo e procuramos ser destaque na multidão. E, para isso, precisamos fazer uma representação daquilo que, talvez, não sejamos. Ao ver alguém assim caminhando pelas ruas, tendemos a imaginar que tenha uma vida pródiga, quase perfeita. De fato, muitas vezes, alguns comportamentos não correspondam à realidade: o ser e o parecer caminham juntos pelas calçadas.
Quando conversamos com alguém, estudamos (isso para aqueles que agem assim!) o que vamos falar ou como vamos nos comportar. Em uma entrevista de emprego, tentamos mostrar ao entrevistador que somos a pessoa certa para o cargo, ou em uma conquista, seja amorosa ou amistosa, precisamos demonstrar o quanto somos aquilo que realmente não somos.
Por esta perspectiva, a “matrix” está funcionando; vivemos uma realidade de aparências.
A hipocrisia tem lados. Ela pode ser pura falsidade e aparência, demonstrando a diferença entre o que se diz e o que se faz. Isso fica mais latente nas produções publicadas nas redes sociais. Sorrisos, conquistas e sucessos são expostos e a realidade por trás deles pode ser exatamente o contrário. Por isso, poderíamos dizer que a hipocrisia seria um traço social que trazemos da realidade e potencializamos através da internet.
Políticos vivem da imagem pública, visando atrair eleitores e manter seus cargos, e fazem da política a arte da hipocrisia, transformada pela liturgia do cargo. Que batalha interna acontece dentro de uma alma que deseja se passar por um benfeitor e, por dentro, esconder ranços ou preconceitos que não podem, de maneira nenhuma, deixar transparecer? Essa dualidade poderia estar, também, naquela alma que, realmente, deseja praticar o bem e é impossibilitada pela falsidade ao redor de si.
Uma opinião sincera é sufocada em prol de um certo politicamente correto que as convenções sociais determinam. Nada está escrito, mas há uma memória coletiva que preserva certos atos de “sincericídio”. Ser alguém sincero ou dizer francamente o que pensa se torna um ato de grosseria, a despeito de que a verdade seja conhecida por todos, e o não-dizer seja a máscara social adotada.
A liberdade e a coragem são conceitos de beleza. Elas são o mote que a sociedade, de maneira geral, adota como condição para um regramento imparcial. Ser livre para dizer o que pensa se esconde atrás da máscara social.
A sociedade incentiva essa liberdade e essa coragem entre as pessoas. Ao mesmo tempo, as sufoca, em prol de uma tal “pacificação” social. As palavras são o grande esconderijo do pensamento real das pessoas. Existem frases de efeito que tentam “amenizar” o sofrimento alheio. Um grande número de pessoas gostaria que a pobreza não se espalhasse e estivesse ao alcance dos olhares. Mesmo sabendo que ela faz parte da sociedade, alguns teimam em afirmar a tal liberdade de ser o que se quer, ainda que saibam que as oportunidades são desiguais. A falsidade está no fato de que, hipocritamente, todos conheçam os mecanismos que geram a pobreza.
Mesmo criticando, a sociedade vê a hipocrisia como um comportamento aceitável. Esse comportamento não perturba a “paz” social enquanto alguns não retiram a máscara que levam, quando vão às ruas fantasiados de pessoas de bem.
Origem da foto: Foto de Marten Newhall na Unsplash
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