TERCEIRIZAÇÃO: ONDE ESTARÁ O FUNDO DO POÇO?

     Quando o capital e trabalho resolveram se reunir, as relações humanas passaram a ser outras. Opa! Resolveram se reunir? Não foi bem assim. Na verdade, um grupo acumulou riqueza, começou a produzir determinado produto ou produtos em larga escala, e pensou: eu não consigo produzir em larga escala sozinho ou pedindo para que pessoas façam em suas casas, terei problemas de transporte, falta de padrões. Preciso pensar em algo mais eficiente. A jogada seguinte foi convocar pessoas a se reunirem em um determinado local, eliminando o problema do transporte e da padronização. Bingo! Estabeleceu-se a relação capital x trabalho. Uma relação que foi estabelecida pelo capital, o trabalhador não foi convocado a partilhar da ideia, ele era parte da ideia.
     E aí começa o mal estar entre trabalho e capital. As pessoas fazem parte de uma situação onde ela participa de modo compulsório, e o capital participa para poder acumular mais.
     As relações trabalhistas não saíram de um consenso, mas de dissenso, onde o ser humano passa de servo para assalariado, com o seu nível de proteção se diluindo, passando a ser responsável por si mesmo. Saindo de um processo de semiescravidão para uma escravidão normatizada, porque passou a ser refém do nexo financeiro, ganhar o capital para sua sobrevivência.
     Assim como o servo, que era protegido por ser responsável pela sobrevivência do senhor, as relações trabalhistas evoluíram para o estabelecimento de algumas regras que garantissem sobrevida para a mão de obra, enquanto indispensável na produção, mesmo que perversamente sendo manipulada no sentido de se ter uma sobra, um nível de dispensas que mantivesse o custo dela dentro de uma planilha constante para a manutenção e crescimento do lucro.
     Quando se imaginava que o saco de maldades parecia vazio, eis que o capital descobre uma nova forma de evoluir o processo de semiescravidão: a terceirização, legalizando-o.
     No meio de todo esse processo ocorreu a evolução tecnológica que transportou a mão de obra do artesão para o operador de maquinário. Logicamente, o trabalho, a arte individual se dilui novamente, em busca da padronização e da redução do tempo. Pergunta-se se o movimento sindical foi o formador da consciência do trabalhador ou a evolução da tecnologia foi a transformadora? Afinal, o capital precisava preservar o seu bem maior: o parque industrial, valioso, não subversivo e completamente obediente. Deram-se algumas garantias ao trabalhador em troca da segurança do maquinário.
     As relações trabalho e capital, sob o efeito cada vez maior da tecnologia, inclusive entrando nos lares aumentando o tempo para o trabalhador, supostamente, continuam a evoluir e criam a figura da terceirização.
     O real significado da terceirização não é a simplicidade de uma nova relação de trabalho. Ela é a criação de um terceiro ator, dentro da polaridade capital x trabalho. O precário está que este terceiro ator é retirado do segundo ator, e, portanto, um subtrabalhador, e, assim sendo, não proprietário da mesma legislação do segundo ator, ou, na melhor hipótese, com subdireitos.
     O trabalho se transforma, assim, em uma espécie de shopping onde o trabalho está exposto na vitrine e o terceiro ator transita nos corredores e comparecendo para fazer um determinado trabalho. Ele não é um trabalhador, ele é uma mão de obra flexível, ou seja, para toda obra, disponibilizando braços e não agregando conhecimentos.
     Esta precarização pode chegar a um extremo apocalíptico onde um engenheiro pode se submeter a um emprego completamente diferente, simplesmente porque não existiria trabalho para ele, ou a remuneração é maior – até onde chegará a tecnologia fabril, não só na arte de fazer quanto de conceber?
     Quando o capital e trabalho começaram a se aproximar, o capital criou um novo procedimento, que é a terceirização. Restaria o empreendedorismo, como forma de fugir ao controle do capital e se tornando o próprio. Restaria o cuidar de si, no pensamento de Foucault, o individualismo se exacerbar? Como será o trabalho no futuro? Será trabalho? Ou a palavra será terceirizada também?