A respeito das reclamações que o ex-candidato Aécio Neves fez ao perder as eleições

CONTRADIÇÕES

     Quais são as razões do inconformismo? Aceitar os fatos como eles são, para algumas pessoas, é muito difícil. É importante, na nossa formação, que as derrotas façam parte da vida, aprender com elas, conviver com elas e considerar, muitas e muitas vezes, que o mundo roda, e que as pessoas e circunstâncias que caminham ao nosso lado, também, muitas e muitas vezes nos são superiores, estão longe do nosso alcance.
     Para aqueles que não aceitam os fatos, como circunstâncias normais, só resta fazer beicinho.
     Um dia, você é obrigado a sair da sua zona de conforto e se expor ao mundo. Aécio Neves saiu do conforto de Minas Gerais para o Brasil e deu no que deu. Hoje somente resta a ele fazer eternas reclamações de que os adversários concorrentes usaram das mesmas armas que sempre usou, e as armas que sempre usou não deram certo no cenário nacional.
     Faz as mesmas ponderações do tempo de campanha, e, apesar de ter sido extremamente grosseiro com as suas “mentirosas e levianas” palavras, não julgou ter ofendido ninguém. Pelo contrário, julgando-se acima do bem e do mal, as palavras que proferia não eram maldosas, mas adjetivos que tinha como coerentes para definir a personalidade dos adversários.
     Essa é uma das questões do discurso que não se renova. Novos tempos, novos discursos, sem as velhas lengalengas do passado, mas mostrando que sabe virar a página e seguir em frente, em busca de algo novo a se fazer, mostrando que o país precisa de renovação e não de rebuscação.
     Procura-se um discurso novo, que não lembre o passado, mas que possa mostrar as possibilidades do futuro. Venceu um projeto de governo; o que eu posso fazer, não para mostrar que ele é velho, mas onde ele pode ser renovado?
     A continuar assim, a oposição mais uma vez vai correr atrás do rabo, e isso não é bom para o país.
     Por outro lado, a revista Veja publica que a “a ficha caiu”. Como a dizer que finalmente o governo reeleito aceitou as teses do candidato vencido. Só não disse que a ficha do adversário continha outras “maldades” escondidas.
     A arte de torcer as palavras desde o coitadismo até dizer que a razão estava sempre ao lado, não quer dizer, para o primeiro caso, um argumento digno de um candidato à Presidência, e ninguém é dono de uma verdade, dono de uma ideia. Qualquer governo coerente, desde aquele de uma casa, uma empresa, um governo sabe que a ordem na casa é importante. Uma coisa é por ordem em algum lugar, doa a quem doer, o outro é por ordem desde que não seja sobre mortos e feridos.
     Lembrei-me de uma opinião de Joelmir Betting explicando a implantação do Plano Real, quando ele disse que o então presidente Itamar Franco demorou a entendê-lo. Tinha uma ponta de ironia, como se o presidente fosse uma pessoa chula que não conseguia compreender a necessidade de um plano dos economistas. O que, talvez, o presidente queria era entender o quanto aquilo poderia atingir a população, já afetada por inúmeras tentativas de equacionar a inflação. Essa é a diferença entre as medidas na Economia: entender que os afetados têm uma importância maior nas imposições. Essa é a ficha que ainda não caiu do outro lado.