Uma das coisas que mais me atraem, na literatura, é o uso da palavra, não como instrumento de verbalização, mas de representação. Imagino fazer arte com a palavra, as suas escolhas, tentando dar uma tonalidade ao texto, e que ele seja livre e solto. Neste artigo, gosto de imaginar que o que está atrás do discurso é uma narrativa forte que o sustente, portanto, o discurso é uma cortina que esconde a arte da palavra.

A CORTINA DO DISCURSO

     Muita coisa se esconde por trás do discurso, muita coisa acontece quando a cortina do teatro se abre. Como os dois, os atores representam atitudes, caráteres, a alegria, a hipocrisia, a tristeza ou a verdade. Para o primeiro caso, as palavras muitas vezes não representam aquilo que pensamos, o que realmente faz parte da nossa história, da nossa cultura, os dissabores ou amores que passamos pela vida. Para o segundo caso, a representação é um contrato vivo de algo a se dizer, ato pensado, ensaiado, uma mensagem para uma plateia, para um público, para um pedaço da sociedade.
     Mas, em um ponto eles se encontram. Quando o discurso é representação.
     Muitas vezes, quando começamos a estudar os poetas, os escritores, a pergunta constante é: o que o poeta, o narrador quis dizer?
     Na verdade eles não querem dizer nada, eles dizem, simplesmente, aquilo que eles sentem ou veem. E nossa curiosidade tenta descobrir por trás do discurso a tal mensagem subliminar. Aquele sentido que tenta extrapolar o limite do compreensível para o incompreensível.
     Mas, isso é literatura.
     E quando no palco os atores representam personagens, os personagens falam por eles, gesticulam, choram, gritam, riem, e são pessoas comuns, e nos seus discursos escondem seus choros e seus gritos, mas os transpassam de maneira velada, algumas vezes cômica, algumas vezes trágica.
     Quando nós falamos algo para alguém, discorremos uma ideia, dizemos ou queremos dizer?
     Somos aquilo que falamos ou aquilo que bebemos. Se bebemos da mesma fonte, por que algumas vezes falamos diferente?
     Já disse Chico Buarque se se “é a voz do dono ou se é o dono da voz”. Algumas vezes o discurso adquire uma série de palavras envolventes, empoladas, que tentam transformá-lo em raciocínio filosófico, mas que se esprememos não sai nada. É seco, incolor, inodoro, e não mata aquela sede de descoberta, de algo novo.
     Por trás de tudo existe uma lógica. Lógica transformadora que talvez mostre o que somos, o que queremos ser, e, no fundo, os nossos desejos.
     Muitas coisas existem por trás dos discursos, sabê-las é um descerrar a cortina para que os atores mostrem quem eles são, na verdade. A construção do discurso é o que dizemos e o que queremos dizer.